Mianmar ignora pedido da ONU para estabelecer ponte aérea

A ONU propôs nesta terça-feira estabelecer uma ponte aérea para Mianmar e evitar, assim, uma segunda catástrofe, após a passagem do devastador ciclone Nargis, mas a junta militar continua impassível e insiste em controlar a distribuição da ajuda humanitária.

AFP |

O regime também mantém sua determinação de rejeitar as pressões internacionais para autorizar com mais rapidez o desembarque de ajuda às vítimas, além de reafirmar que não permitirá a entrada de muitos voluntários, 11 dias após a tragédia.

"No momento, a nação não precisa de trabalhadores humanitários especializados", garantiu o vice-almirante Soe Thein, alto conselheiro da junta que governa Mianmar desde 1962, em entrevista ao jornal governamental "New Light of Myanmar".

Ainda segundo ele, as necessidades de centenas de milhares de sobreviventes de uma das piores catástrofes naturais dos últimos anos "foram supridas em grande parte".

Diante da gravidade da crise humanitária, a Agência de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha) advertiu que é necessário estabelecer "uma ponte aérea, ou marítima" para enviar ajuda "o mais rápido possível" e evitar uma "segunda catástrofe" no país.

Em uma coletiva de imprensa, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou "sua preocupação e sua imensa frustração diante da lentidão inaceitável da resposta a essa grave crise humanitária".

O presidente americano, George W. Bush, um dos maiores críticos da junta birmanesa, afirmou que "o mundo deve estar irritado e condenar" o regime asiático.

"É impossível dizer quantas pessoas perderam a vida, devido à reação lenta" das autoridades birmanesas, censurou Bush.

Após uma reunião ministerial de emergência, a União Européia (UE) exigiu "das autoridades birmanesas que ofereçam um acesso livre de qualquer obstáculo aos especialistas humanitários, incluindo a rápida entrega de vistos".

A UE também reivindicou a adoção de "medidas urgentes para facilitar a chegada da ajuda às pessoas necessitadas que devem se beneficiar plenamente da assistência oferecida pela comunidade internacional".

O comissário europeu de Desenvolvimento, Louis Michel, anunciou ter obtido um visto para entrar em Mianmar. Ele viajará para Bangcoc e, então, seguirá para Yangun.

Diante do elevado risco de fracasso dessa missão, os ministros da UE rejeitaram uma proposta francesa para exigir da ONU que imponha a ajuda internacional à junta.

Apesar de o ritmo de entrada de ajuda estrangeira ter se acelerado desde domingo, as necessidades continuam sendo imensas para sobreviventes desesperados e isolados, nas zonas do delta do Irrawaddy (sudoeste), onde ainda flutuam cadáveres em decomposição. A ONU, que acredita que haja mais de 100.000 mortos, alertou para possíveis epidemias de dengue e malária.

Até agora, as operações de socorro haviam permitido responder a apenas de 10% a 20% das necessidades de água potável, víveres e materiais, segundo a ONU.

Depois de visitar diferentes localidades afetadas, a responsável pela Cruz Vermelha em Yangun, Bridget Gardner, declarou que a população "precisa desesperadamente de alojamento, água potável e cuidados básicos".

Na cidade de Labutta, "mais de 10.000 pessoas estão sem abrigo, quando as intensas chuvas já haviam começado", disse Gardner, em nota divulgada em Genebra.

Os trabalhadores humanitários estrangeiros dizem ter dificuldades logísticas. Pelo menos 50 dos que trabalham para agências da ONU e para ONGs continuam esperando seus vistos para entrar em Mianmar.

Depois da chegada de um primeiro avião cheio de ajuda, segunda-feira, a Yangun, os Estados Unidos enviaram hoje mais um aparelho. Um terceiro avião também deve chegar em breve. Enquanto isso, a junta continua querendo controlar a distribuição dessa ajuda.

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