Mianmar corre risco de enfrentar crise de fome

Juan Campos Yangun, 24 mai (EFE).- A região do sul de Mianmar (antiga Birmânia) sofre uma crise alimentícia que pode se estender ao resto do país, e a população local enfrenta ameaças de desnutrição e de uma crise de fome, a menos que receba alimentos de forma imediata.

EFE |

A advertência foi feita à Agência Efe pela representação em Yangun da ONG francesa Ação Contra a Fome (ACF), uma das poucas agências internacionais de ajuda humanitária que receberam permissão do regime para trabalhar em Mianmar.

Três semanas depois de o ciclone "Nargis" devastar o delta do rio Irrawaddy, de difícil acesso, a enorme destruição e a lentidão na resposta à emergência das autoridades, além do bloqueio de grande parte da ajuda externa, levaram povoados inteiros a não ter recebido ainda alimentos.

"A situação é muito grave, eles precisam de comida com urgência", assinalou Franck Vanetelle, especialista em segurança alimentar da ONG francesa.

Vanetelle lembrou que nos primeiros dias depois da passagem do "Nargis", no povoado de Bogalay, onde 90% das casas foram destruídas, as rações de arroz já tinham se reduzido à metade.

"Os pescadores perderam seus barcos e redes, os camponeses ficaram sem suas plantações e animais, não há alimentos e nem uma forma de obtê-los", explicou Vanetelle.

As crianças são as mais vulneráveis à crise alimentícia, e em dois meses podem começar a morrer por causa do enfraquecimento de seus sistemas imunológicos.

"O primeiro passo é a crise alimentícia, na qual já estamos, depois vem a nutricional, que precisa ser evitada imediatamente, e em seguida há a fome generalizada", comentou o técnico.

Com 2,5 milhões desabrigados, segundo dados das Nações Unidas, uma crise nutricional poderia aumentar ainda mais o número de mortos na tragédia, que já passa de 78 mil segundo o Governo birmanês.

A ACF não registrou focos de cólera, dengue ou malária nas zonas onde opera na região devastada pelo ciclone, mas já encontrou os primeiros casos de diarréia severa, que costuma anteceder as epidemias de doenças associadas à água parada.

Vanetelle alertou ainda para o risco de que nos próximos meses a crise alimentícia se estenda ao norte do país, que antes da tragédia era abastecida de cereal e outros alimentos do delta do rio Irrawaddy, a região mais fértil de Mianmar e que já foi a maior produtora de arroz de todo o Sudeste Asiático.

Os próximos dias e semanas serão decisivos no sul de Mianmar para determinar se os agricultores poderão semear suas terras durante a temporada bienal de semeadura, que começa em maio e termina em junho.

"Será muito difícil eles conseguirem, e se não for possível terão perdido esta colheita e também a próxima", afirmou Vanetelle.

Se esse quadro for confirmado, Mianmar sofrerá uma nova espiral de inflação e terá de importar arroz das nações vizinhas, que desde o começo do ano sofrem com a crise do aumento de preços pela falta de fornecimento do grão.

A ajuda humanitária vai minimizar os efeitos desse problema a médio prazo, mas não o solucionará, afirma a ACF. EFE csm/mh

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