México enfrenta dilema entre violência e corrupção

A guerra contra as drogas está perto de completar um século e o problema - em nível mundial, longe de se resolver - cresceu em termos de consumo de drogas ilegais e gerou custos muito altos para vários países que participam da cadeia de produção, transportes e venda de drogas. Os custos são particularmente altos em países latino-americanos que, coincidentemente, contam com fracas instituições de segurança e Justiça, que fazem com que os efeitos do narcotráfico cheguem a ameaçar a governança do próprio país.

BBC Brasil |

Este tem sido o caso do México, pelo menos nas últimas duas ou três décadas.

Apesar de maconha e heroína serem produzidas no México desde o início do século 20, o problema cresceu preocupantemente a partir de meados dos anos 80, quando a cocaína produzida na Colômbia inundou o mercado americano, usando as rotas dos traficantes de maconha do México.

Esse tráfico alimentou de forma feroz o crescimento das quadrilhas mexicanas que, em meados dos anos 90, chegaram a ocupar o vazio deixado pelos cartéis colombianos que haviam sido desmantelados.

O fortalecimento dos cartéis mexicanos provocou um aumento dos efeitos colaterais do narcotráfico: a corrupção e a violência.

Violência funcional
A violência começou entre quadrilhas de traficantes, que a usavam para operar como negócio ilegal, como em ajustes de contas, manutenção da disciplina dentro das organizações e execuções contra os traficantes que invadissem "áreas" alheias.

Dois fatores foram chave para a continuação desta violência funcional: a existência de um mediador dentro do mundo do tráfico - papel que muitos atribuem a Amado Carrillo, o chefe do cartel de Juárez - e uma política de tolerância do governo mexicano que, a fim de evitar que a violência ameaçasse a estabilidade, permitiu aos traficantes que operassem sob algumas regras implícitas.

Esses dois elementos, por sua vez, abriram caminho para o desenvolvimento de uma ampla corrupção que afetou todas as forças encarregadas de combater o tráfico, inclusive o Exército.

Esta "narcocorrupção" se encaixava bem em um sistema político autoritário, para o qual o Estado de Direito não era uma prioridade e cujo funcionamento dependia, em boa medida, de uma corrupção instalada também em outros aspectos da vida social.

Neste sentido, seria um erro dizer que a corrupção chegou ao México com o narcotráfico, mas é possível afirmar que ela foi potencializada e ganhou nova dimensão com o tráfico.

Esta corrupção, por sua vez, se inseriu em uma cultura de ilegalidade prevalecente entre a população que persiste até hoje.

Batalha
Com a eleição de Vicente Fox para a Presidência, a política de tolerância em relação ao tráfico mudou, e vários "chefões" foram presos.

Essa mudança de política diminuiu relativamente a corrupção no nível do governo federal, mas a violência aumentou por conta do desequilíbrio entre as quadrilhas de traficantes.

Com o desequilíbrio, aumentou a disputa entre os cartéis, como a guerra travada entre o grupo de Sinaloa e o do Golfo, em 2005.

A diminuição da narcocorrupção também se deve ao fato de Fox pertencer ao PAN (Partido de Ação Nacional), que rompeu o monopólio do PRI (Partido Revolucionário Institucional), que havia passado 71 anos no poder.

A mudança de poder afetou algumas redes de corrupção estabelecidas pelo narcotráfico. Paradoxalmente, a alternância política também teve o efeito de mover a corrupção do narcotráfico aos níveis municipais e estaduais.

O governo do presidente Felipe Calderón decidiu não apenas manter a política de combate contra as organizações traficantes, mas também aumentá-la de maneira significativa, com uma série de operações policiais e militares.

Esta política constituiu, em si mesma, uma mensagem aberta às quadrilhas de tráfico de que deveriam encerrar a guerra iniciada em 2005.

Esta guerra teve aparentemente uma trégua em meados de 2007, quando os níveis da narcoviolência diminuíram, segundo registram algumas fontes, supostamente por conta de um pacto entre os dois cartéis.

Nova ofensiva
No início de 2008, no entanto, Calderón lançou uma nova ofensiva contra a estrutura dos cartéis, e não apenas contra a liderança, como havia feito o governo de Fox.

Essa ofensiva provocou uma fragmentação dos grandes cartéis e o conseqüente aumento da violência entre as quadrilhas, assim como de ataques contra a polícia e o Exército mexicanos.

O cenário atual mostra uma diminuição importante da corrupção em nível federal, mas não tanto em níveis municipais e estaduais.

Ao mesmo tempo, a violência ligada ao tráfico aumentou de maneira alarmante, o que deixa o governo de Calderón com o dilema de prosseguir com esta guerra, com o custo em termos de execuções, ou regressar a uma política de tolerância, já adotada por governos do PRI no passado, com o conseqüente aumento da corrupção.

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