México é o pior país da América Latina para jornalistas

Em dez anos, 61 profissionais foram assassinados e 10 estão desaparecidos no país; ONG denuncia impunidade

Marina Morena Costa, de Guadalajara, México |

O México há tempos figura nas primeiras posições nos rankings sobre países perigosos para o exercício do jornalismo e da liberdade de expressão. No ano passado, desbancou a Colômbia e assumiu o posto de país mais perigoso da América Latina para jornalistas, na lista elaborada pela ONG Repórteres Sem Fronteiras.

AP
Repórter mexicano Ixtli Martinez é atingido por disparo na perna quando cobria confrontos de estudantes na Universidade Autônoma Benito Juárez de Oaxaca (10/06/2010)
Lançado neste ano, estudo inédito da organização Article 19 (Artigo 19, ONG mundial que luta pela liberdade de expressão e de informação) e do Centro Nacional de Comunicação Social (Cencos) revela que, das 244 agressões registradas contra profissionais da imprensa, 65,57% foram cometidas por funcionários do governo mexicano e 6,15% pelo crime organizado. 

Apesar de as ações mais violentas – assassinatos, sequestros e desaparecimentos – serem atribuídas aos grupos criminosos, o alto percentual de agressões físicas e materiais feitas pelo governo revela os entraves impostos à imprensa mexicana.

“As coisas têm piorado a cada ano desde dezembro de 2006, com a chegada do presidente (Felipe) Calderón ao poder e com o lançamento de sua política anticrime. Há uma razão pra isso. Ele ordenou que as Forças Armadas dessem assistência às atividades da polícia. Com isso, nos deparamos com os militares fazendo patrulhas nas ruas”, explicou ao iG Ricardo Gónzález Bernal, responsável pelo Programa de Liberdade de Expressão da Article 19.

Entre os ataques a jornalistas cometidos por funcionários públicos, a maior porcentagem é creditada aos oficiais das Forças Armadas. “Não há um protocolo adequado nem um treinamento para que o Exército lide com a imprensa ou facilite o trabalho dos jornalistas”, disse Bernal.

No caso mais grave registrado em 2009 pela Article 19, quatro jornalistas foram sequestrados por militares e torturados. “Acusaram os repórteres de passar informações para grupos criminosos, o que se provou completamente falso. Infelizmente detenções ilegais são comuns”, afirmou.

Perigo

De acordo com Bernal, é difícil separar quais ameaças e intimidações foram cometidas pelo governo e quais por grupos criminosos, por causa das relações escusas entre poder e criminalidade. “E o risco aumenta dramaticamente quando o jornalista resolve investigar e reportar a ligação entre o governo e o crime organizado”, relatou.

José Reveles, jornalista com 40 anos de carreira e autor de diversos livros sobre o narcotráfico, corrobora a análise. “Não há tráfico de drogas nem crime organizado que opere sem a cobertura, a proteção e a cumplicidade de todos os tipos de autoridades políticas, policiais e militares. Em um contexto de violência, corrupção e impunidade como do México, é muito difícil (senão impossível) estabelecer uma linha divisória, uma fronteira entre o crime e as autoridades”, afirmou.

Para Reveles, os dados revelados por Article 19 e Cencos são “aterrorizantes”. “Desmentem a versão do governo de que agora aqueles que ameaçam, sequestram e matam os jornalistas são traficantes membros do crime organizado.”

A combinação de um Exército despreparado para lidar com a imprensa, alta criminalidade, poder corrompido e jornalistas sem treinamento para cobertura de risco resultou em 61 assassinatos e 10 desaparecimentos nos últimos dez anos. Só em 2009, ano considerado o mais violento da década pela Comissão Nacional de Direitos Humanos, 12 mortes foram registradas. Em 2010, o saldo está em quatro jornalistas mortos.

Dos 12 assassinatos cometidos no ano passado, nenhum foi solucionado ou sequer chegou a julgamento. “Estamos vivendo um estado generalizado de impunidade”, denunciou Bernal. Como causas dessa situação, ele aponta a morosidade da Justiça e da Procuradoria Geral da República. O problema é apontado também pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas, que coloca o México em nono entre os países nos quais crimes contra jornalistas permanecem impunes.

O relatório da Article 19 e Cencos faz uma série re recomendações ao governo mexicano. Entre elas estão tornar crime federal todos os delitos contra a liberdade de expressão, a criação de uma procuradoria especializada em crimes contra jornalistas e um marco jurídico que defina funções, composição e mecanismo para o Comitê de Proteção aos Jornalistas.

*A repórter viajou a convite do Santander Universidades

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