Ignacio Ortega Moscou, 15 ago (EFE).- A chanceler alemã, Angela Merkel, qualificou hoje de desproporcional o uso da força por parte do Exército russo na Geórgia e defendeu a retirada imediata das tropas russas desse país.

"Ainda levando em conta a versão russa dos acontecimentos, de qualquer forma (...) considero desproporcional a reação russa", afirmou Merkel em coletiva de imprensa conjunta com o chefe de Estado russo, Dmitri Medvedev.

Merkel, que se reuniu hoje com Medvedev na residência de verão do presidente no balneário de Sochi (Mar Negro), também viajará para Tbilisi no fim de semana para tentar encontrar um acordo pacífico para o conflito junto com o chefe de Estado georgiano, Mikhail Saakashvili.

"O ponto de partida deve ser a integridade territorial da Geórgia", disse Merkel, que acrescentou que "não se podem esperar 15 anos para a solução do conflito".

Além disso, considerou que a presença das tropas russas em território georgiano é "incorreta" e disse que "por isso, é necessário cumprir urgentemente o plano de seis pontos", apresentado esta semana pela União Européia (UE) e aceito por Moscou e já assinado pelo presidente georgiano.

Em relação ao estatuto das regiões separatistas georgianas da Abkházia e da Ossétia do Sul, Merkel disse que o formato das negociações deve respeitar o direito internacional.

"Cada caso deve ser analisado separadamente. Mas, nem toda localidade que deseja sair da união com um Estado é capaz de se transformar em um Estado independente. Se fosse assim, haveria muitos problemas no mundo. O princípio deve ser a integridade territorial", afirmou.

Merkel se mostrou também partidária de permitir o acesso de mais observadores internacionais a Abkházia e Ossétia do Sul, entre eles os da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Por outro lado, a chanceler alemã disse que a guerra na Geórgia não é motivo para revisar a postura da Otan em relação à entrada deste país e também da Ucrânia na organização.

Na cúpula da Aliança Atlântica que ocorreu em abril em Bucareste "dissemos que Geórgia e Ucrânia serão membros da Otan se assim o desejam. Isso se mantém imutável", disse.

Já o presidente da Rússia assinalou que a "segurança na Ossétia do Sul foi restabelecida", mas "as forças de paz russas continuarão sendo fiadoras" da segurança em toda a região do Cáucaso.

Medvedev afirmou que "parece que o senhor (presidente georgiano, Mikhail) Saakashvili se cansou da diplomacia e, simplesmente, decidiu esfaquear os sul-ossetas que lhe incomodavam para puni-los".

"Toda a responsabilidade das ações cruéis e ilegais recai sobre o Governo georgiano. É necessário que a paz na região seja restaurada e garantida para que idéias idiotas não passem pela cabeça de ninguém", acrescentou.

Por sua vez, o presidente georgiano anunciou hoje que assinou o plano europeu para por fim ao conflito bélico e exigiu a retirada das tropas russas, as quais qualificou de "ocupantes".

Saakashvili fez estas declarações em coletiva de imprensa conjunta com a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, que chegou hoje a Tbilisi em missão mediadora.

Medvedev asinalou também que "a Rússia não quer uma deterioração das relações com a UE e os EUA, seja a curto ou a longo prazo".

"Não queremos romper relações com ninguém", já que a piora das relações internacionais "beneficiaria unicamente as forças mais reacionárias", disse.

Em todo caso, ratificou que Moscou não "deixará sem resposta" os ataques a seus cidadãos e a suas tropas de paz, e que "vai responder" como já o fez.

Em relação ao futuro status da Ossétia do Sul e da Abkházia, Medvedev afirmou que a Rússia apoiará qualquer decisão dessas duas repúblicas autoproclamadas independentes, mas que nunca foram reconhecidas pela comunidade internacional.

"A Rússia aceitará qualquer decisão que reflita a vontade desses dois povos. Infelizmente, depois do ocorrido, dificilmente as pessoas da Ossétia do Sul e da Abkházia poderão viver no mesmo estado que os georgianos", comentou.

Medevedev ressaltou que "ninguém renega o princípio de integridade territorial como um dos princípios fundamentais do direito internacional. A questão é a situação concreta e o país concreto".

Segundo o chefe de Estado, a Rússia está disposta a negociar a presença de forças de paz internacionais na área do conflito, mas alertou que, neste momento, os separatistas "só confiam nas tropas de paz russas". EFE io/ab/rr

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