Mercosul enfrenta nova cúpula com diversos conflitos pendentes

Eduardo Davis. Brasília, 14 dez (EFE).- A 36ª Cúpula do Mercosul, que será realizada amanhã e nesta terça-feira na Costa do Sauípe, na Bahia, terá como pano de fundo as assimetrias denunciadas por Paraguai e Uruguai, as relações argentino-uruguaias em suspense devido à instalação de uma fábrica de celulose e frentes de tempestade entre Brasil e Paraguai pela hidrelétrica de Itaipu.

EFE |

Nos últimos anos, os conflitos entre os quatro Estados-membros plenos do bloco se multiplicaram, apesar de seus líderes terem expressado reiteradas vezes vontade política para a integração.

Nem sequer as coincidências ideológicas que existem hoje entre os presidentes de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai bastaram para atenuar conflitos que, segundo analistas, acabam impondo obstáculos à integração.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais a argentina Cristina Fernández de Kirchner, o uruguaio Tabaré Vázquez e o paraguaio Fernando Lugo se situam todos sob o véu da esquerda moderada que tomou conta da América do Sul nos últimos anos.

As relações entre Brasil e Paraguai passam por um momento delicado, sobretudo desde que o paraguaio Fernando Lugo chegou ao poder.

O ex-bispo cumpriu com o que prometeu em sua campanha eleitoral e exigiu que o Brasil revisasse o Tratado de Itaipu, que regula as operações da hidrelétrica de mesmo nome e cuja propriedade é compartilhada por ambos os países.

Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo em operação, foi construída com capitais brasileiros sobre o fronteiriço Rio Paraná e tem potência instalada de 14 mil megawatts.

Segundo o Tratado de Itaipu, assinado em 1973, Brasil e Paraguai têm direito cada um a 50% da eletricidade gerada, e a energia não utilizada deve ser vendida ao outro sócio a preços fixados.

Cerca de 90% da demanda paraguaia são atendidos com apenas 5% da produção de Itaipu, e o resto acaba no Brasil, que paga por ela aproximadamente US$ 300 milhões anuais.

Segundo Lugo, o preço deve ser revisado, e subir até cerca de US$ 2 bilhões, o que o Brasil não aceita e sustenta que só pode ser discutido a partir de 2023, quando vencerá o tratado.

Em setembro último, durante a primeira visita oficial de Lugo ao Brasil, o Governo Lula e a comitiva de Assunção decidiram criar um grupo técnico de trabalho para analisar o tema. O líder brasileiro, no entanto, já esclareceu que não cederá para que o tratado seja revisado.

Em novembro, o Paraguai expressou mal-estar pela presença de soldados brasileiros que faziam manobras militares a poucos metros da fronteira comum.

A Chancelaria paraguaia pediu inclusive "explicações" pelo que classificou como "sistemática" e "recorrente atitude" de "confronto e provocação" por parte do Brasil, que atribuiu a presença militar nas proximidades da fronteira a um "erro" dos soldados.

Já a argentina Cristina de Kirchner não fala com Tabaré Vázquez desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2007, e mantém as relações com o Uruguai em suspense, devido à construção em solo uruguaio de uma fábrica de celulose que os argentinos alegam que trará riscos ambientais a seu território.

As discordâncias suscitadas pela instalação da fábrica da empresa finlandesa Botnia se arrastam desde 2003, e desde então apenas ganharam força, até o ponto de chegarem à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, onde ainda se analisa o caso.

O impacto desse conflito no processo de integração ficou mais visível em outubro último, quando ultrapassou as fronteiras do Mercosul.

O Equador propôs o nome do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner para o cargo de secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), mas o mesmo acabou vetado pelo Uruguai.

O Governo argentino saiu em defesa do marido e antecessor da presidente Cristina, considerando que o Uruguai estava "misturando tudo". Buenos Aires recebeu o veto como "um agravo a todos os argentinos".

Em meio a esse clima, Uruguai e Paraguai voltarão a expor nesta 36ª Cúpula do Mercosul sua queixa antiga envolvendo assimetrias econômicas existentes no bloco.

Segundo os dois Estados-membros de menor desenvolvimento do Mercosul, os abismos econômicos que lhes separam de Brasil e Argentina impedem acesso aos benefícios da integração e podem se agravar ainda mais, devido à crise financeira global. EFE ed/fr/mh

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