Bernardo Suárez Indart. Moscou, 7 mai (EFE).- O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, completa hoje o primeiro ano de seu mandato à frente do Kremlin, que esteve marcado pelo conflito na Geórgia, pela crise econômica, pelas tensões com o Ocidente e à sombra de seu antecessor e atual primeiro-ministro, Vladimir Putin.

"Se, naquela época, tivessem dito a Medvedev que lhe esperava uma guerra no Cáucaso e uma catástrofe na economia mundial, certamente não teria aceitado a candidatura (presidencial)", afirmou Gleb Pavlovski, analista político próximo ao Kremlin, em uma entrevista ao jornal "Argumenty i Fakty".

A primeira ação de Medvedev como presidente da Rússia foi apresentar, há um ano, à Duma (Câmara dos Deputados russa) a candidatura de seu antecessor à Chefia do Governo, o que representou a consagração da dupla Medvedev-Putin.

Alguns consideram Medvedev como um mero executor da vontade de Putin, com a missão de cuidar da poltrona presidencial até as eleições de 2012 ou até quando seu antecessor achar conveniente, mas outros afirmam que estes doze meses no Kremlin transformaram o atual presidente em um estadista de peso.

Em qualquer caso, segundo uma pesquisa feita às vésperas do primeiro ano de Medvedev no Kremlin, 80% dos russos estão convencidos de que este continua "exatamente" ou "em linhas gerais" a política de seu antecessor.

De acordo com essa pesquisa, realizado pelo Centro Levada, 11% dos entrevistados consideram que Medvedev realiza uma mudança gradativa do rumo político herdado de Putin, enquanto apenas 2% acham que a política do atual presidente é completamente diferente da anterior.

Entre os entrevistados, 48% acreditam que o poder no país está nas mãos de Medvedev e Putin em igual medida, 30% estão convencidos de que o primeiro-ministro é quem realmente manda no país, enquanto apenas 12% acham que a voz é do presidente.

O primeiro ano no Kremlin não foi fácil para Medvedev: apenas três meses após chegar à Presidência, ordenou a invasão militar da Geórgia, em uma operação para "impor a paz" no país vizinho, depois que as tropas georgianas entraram na região separatista da Ossétia do Sul.

O conflito em agosto na Transcaucásia, que durou apenas cinco dias, e o posterior reconhecimento pelo Kremlin das independências das regiões separatistas georgianas da Ossétia do Sul e da Abkházia prejudicaram as relações com Ocidente ao ponto de a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ter decidido inclusive bloquear sua cooperação com a Rússia.

Enquanto isso, as relações entre Moscou e Washington passavam pelo pior momento desde a época da perestroika de Mikhail Gorbachov.

A rejeição dos Estados Unidos à invasão russa da Geórgia se juntava à insistência americana em posicionar seu escudo antimísseis na Europa, iniciativa considerada pelo Kremlin uma ameaça direta à segurança nacional da Rússia.

No entanto, com a chegada do democrata Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro, começaram a soprar novos ares nas relações russo-americanas.

As relações estavam tão problemáticas que a nova secretária de Estado americana, Hillary Clinton, usou o termo "reset" (reiniciar) para destacar a necessidade de relançar, com outro espírito, as relações entre os dois países.

O primeiro contato direto entre Medvedev e Obama, que aconteceu em 2 de abril, em Londres, dentro da cúpula do Grupo dos Vinte (G20, os países mais ricos e os principais emergentes), confirmou a disposição dos líderes de impulsionar a cooperação bilateral, incluindo no âmbito do desarmamento.

Quando, em maio de 2008, Medvedev assumiu a Presidência, a crise financeira global começava sua "incubação" e a estabilidade da Rússia parecia à prova de qualquer turbulência.

Poucos meses depois, a crise batia na porta da Rússia: a forte queda dos preços do petróleo, o principal produto de exportação russo, não demorou a causar impacto.

Desde agosto do ano passado, as reservas russas diminuíram em mais de US$ 210 bilhões.

No entanto, a gestão econômica é de competência do Governo e, portanto, segundo alguns comentaristas, o desgaste político da gestão da crise afetará o primeiro-ministro, e não o presidente.

Na opinião de Pavlovski, se Medvedev conseguir a melhoria do nível de vida da população, terá tudo para buscar a reeleição em 2012. EFE bsi/an

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