O presidente russo, Dmitri Medvedev, afirmou nesta sexta-feira que a visita ao Irã que o governante brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, fará neste fim de semana é a "última oportunidade" de resolver o problema nuclear iraniano sem recorrer à imposição de sanções.
"Espero que a missão do presidente do Brasil alcance êxito. É talvez a última chance antes da adoção de medidas pelo Conselho de Segurança da ONU", disse Medvedev, em entrevista coletiva no Kremlin, após se reunir com Lula.
Presidente Lula se encontra com o russo Dmitri Medvedev nesta sexta-feira
Na véspera, o líder russo conversou por telefone com o presidente americano, Barack Obama, sobre a oferta de mediação proposta pelo Brasil com o objetivo de enriquecer urânio para as usinas atômicas do Irã em outro país.
"Disse a Obama que é preciso dar a possibilidade ao presidente do Brasil para que este utilize todos os argumentos para que o Irã coopere", assinalou Medvedev, quem estimou em "30%" as chances de êxito da missão de Lula em Teerã.
O chefe do Kremlin ressaltou que se as tentativas do Brasil não derem resultado, a comunidade internacional vai impor novas sanções ao Irã. Neste sentido, Medvedev destacou que os seis países mediadores no conflito com o Irã (os cinco membros permanentes do Conselho da ONU e Alemanha) mantêm com relação "as posturas suficientemente consolidadas", por isso não é possível descartar a imposição de sanções.
"Por isso, desejo a Lula que tenha sucesso nas negociações com o Teerã e insisto ao presidente iraniano (Mahmoud Ahmadinejad) que escute os argumentos de Lula", manifestou o chefe do Kremlin.
Na última quinta-feira, um graduado funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos também afirmou, sob condição de anonimato, que a viagem do presidente brasileiro ao Irã neste fim de semana pode ser a última chance que o governo iraniano tem para dialogar com o mundo antes da sofrer mais sanções. "Acredito que devemos considerar a visita de Lula como uma última tentativa de diálogo", afirmou um graduado funcionário do Departamento de Estado.
Reunião entre Lula e Medvedv
Lula se reuniu nesta sexta-feira com o presidente russo, Dmitri Medvedev, para estudar as possibilidades de aumentar a cooperação econômica entre os dois países, além de tentar encontrar soluções diplomáticas para a questão nuclear iraniana.
A reunião começou com um aperto de mãos e um abraço entre os líderes, que primeiro se reuniram de forma privada e depois com participação de suas respectivas delegações. Entre os acordos e memorandos que devem ser assinados por Lula e Medvedev, há um programa de cooperação técnico-científica para 2010-2012 e outro de cooperação militar.
Ainda nesta sexta-feira, o presidente do Brasil, deve ter um encontro com o primeiro-ministro, Vladimir Putin, segundo o Kremlim, e deve discutir a questão das sanções das Nações Unidas contra o Irã.
Polêmica internacional
Teerã protagoniza uma polêmica internacional por seu programa nuclear, que países ocidentais suspeitam ter objetivos bélicos. O governo iraniano nega as acusações.
A visita de Lula ao Irã ocorrerá enquanto os EUA tentam impulsionar no Conselho de Segurança da ONU a quarta rodada de sanções para forçar o país a suspender seu enriquecimento de urânio, que pode servir como combustível para alimentar reatores ou para a fabricação de bomba atômica.
Entretanto, a China - que, assim como EUA, Rússia, França e Grã-Bretanha, tem poder de veto no órgão - vem sendo o principal obstáculo para a aprovação. Brasil, Turquia e Líbano, que são membros rotativos do conselho de 15 cadeiras, também se opõe à medida. Para aprovar novas sanções, são necessários nove votos.
Lula defende as atividades nucleares do Irã, dizendo que o país tem direito à energia atômica. Além disso, ele também se ofereceu para mediar o conflito entre Irã e o Ocidente para evitar a imposição de sanções e persuadir o governo iraniano a cooperar com a comunidade internacional para dissipar as suspeitas de que seu programa nuclear tem fins militares
Na quarta-feira, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, "garantiu ao presidente Lula o total apoio aos esforços do Brasil para convencer autoridades iranianas a responder plenamente aos pedidos da comunidade internacional sobre o programa nuclear", indicou um comunicado do Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa.
No dia 5 de maio, o site oficial do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, divulgou que Teerã havia aceitado a proposta oficial do Brasil de mediar para tentar quebrar o impasse sobre um acordo de troca de combustível nuclear entre o Irã e o Ocidente. O Brasil, porém, negou que tivesse feito uma proposta oficial sobre a questão.
Em abril, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, declarou, durante uma visita a Teerã, que o Brasil "poderia examinar" a possibilidade de ser sede da troca, caso existisse uma solicitação oficial. "Até agora não recebemos tal proposta, mas, se fosse o caso, poderíamos examiná-la", disse Amorim.
Questionado sobre o assunto na época, Lula disse que o mundo "precisa" de uma proposta sobre o programa nuclear iraniano que envolva não apenas Teerã, mas também as Nações Unidas.
Segundo o presidente, o Brasil está disposto a "contribuir" no processo de negociação com o Irã. "Se o Brasil puder dar uma contribuição, pode ficar certo de que nós vamos dar", disse durante uma cerimônia no Palácio do Itamaraty.
De acordo com Lula, o Brasil está "empenhado", ao lado da Turquia, nas negociações com o Irã e vem discutindo o assunto com os "principais líderes" do mundo. Lula disse ainda que está "muito otimista" com sua viagem a Teerã, no dia 15 de maio, quando se encontrará com Ahmadinejad. "Estou muito otimista de ir ao Irã e tentar conversar com o presidente Ahmadinejad sobre a melhor saída", disse.
Depois do Irã, Lula segue para Espanha e Portugal.
* Com AFP, EFE e BBC
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