Um médico espanhol encabeça campanhas para reverter a mutilação genital feminina, uma prática comum em diversos países da África. O ginecologista Pere Barri Soldevilla, do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Reprodução do Institut Universitari Dexeus, em Barcelona, decidiu oferecer a técnica a imigrantes africanas após concluir sua especialização em cirurgia ginecológica em Paris.

"A idéia era realizar a primeira intervenção em 2007, quando iniciamos a campanha nos meios de comunicação para atrair voluntárias", disse à BBC Barri Soldevilla. Ninguém apareceu.

Só depois de uma segunda campanha, realizada este ano, 12 mulheres se apresentaram - destas, duas já foram operadas em maio.

"Não vieram mais pacientes porque é preciso levar em conta que essas mulheres consideram normal a mutilação", afirma o especialista.

"As que o fizeram são da segunda geração ou vieram (para a Espanha) quando eram muito pequenas e querem se integrar totalmente à sociedade."
Recuperação
Segundo os especialistas, 75% das mulheres que se submetem à cirurgia recuperam, em distintos graus, a sensibilidade de seus órgãos genitais.

Mas é um processo que requer tempo. Embora a paciente já possa voltar para casa 24h após a operação, o tratamento que se sucede inclui controles quinzenais durante os primeiros meses.

"Neste período, se comprova a sensibilidade através do tato", explica o médico.

Os médicos eliminam o tecido cicatrizado da zona mutilada, localizam o final do clitóris com os nervos implicados na sensibilidade sexual e extirpam a fibrose, deixando o tecido o mais novo e protegido por epitélio possível.

Cerca de 90 dias depois o clitóris está totalmente recoberto, mas ainda sensível ao toque.

Antes e depois da cirurgia, as pacientes são submetidas a avaliações psicológicas para determinar sua qualidade de vida sexual.

A intervenção serve não apenas para recuperar (ou adquirir) sensibilidade sexual, mas corrigir problemas experimentados por mulheres que passaram por mutilações radicais.

Nestes casos são afetadas outras funções, como a urinária. As mulheres também podem sofrer de infertilidade - como produto de infecções internas -, ter dificuldades na menstruação, sentir dores durante o ato sexual e ter problemas durante a gravidez e o parto.

"Não se trata de uma intervenção estética", diz Barri Soldevilla. Para ele, trata-se de melhorar a saúde e a qualidade de vida de centenas de mulheres que vivem na Espanha.

Prática cultural
Entretanto, a prática, realizada gratuitamente, não pode ser exportada para a África nem oferecida a mulheres que não vivam na Espanha, porque a mutilação forma parte da cultura de muitos países, nos quais mulheres com o clitóris intacto são repudiadas.

"No Senegal, por exemplo, a que não tiver feito (a mutilação) é colocada de lado", afirma o médico. Ele diz que o mais bonito do projeto "é ver como as mulheres vão recuperando sua sexualidade".

"Como mulheres, antes da intervenção elas sabem o que falta. O que custa é aprender sobre sua sexualidade uma vez que recuperam a sensibilidade", afirma.

Ou seja, começam a experimentar uma série de sensações, mas não sabem se chegaram ao limite ou se ainda lhes falta aprender.

Em breve, outras dez mulheres africanas esperam ser operadas em Barcelona. Um número ainda pequeno, considerando dados da organização Anistia Internacional, que estima que a cada ano 2 milhões de meninas são submetidas à mutilação genital.

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