McCain vai abrir mercado para América Latina, diz assessor

Apoio aos tratados de livre comércio com a América Latina e dúvidas sobre a transição em Cuba e a necessidade de se continuar importando petróleo da Venezuela fazem parte do discurso político do candidato republicano à Casa Branca, John McCain, para a América Latina. É o que explica Otto Reich, um dos assessores do senador republicano para a região.

BBC Brasil |

Reich é um velho conhecido dos latino-americanos, pois foi o subsecretário para Assuntos Hemisféricos dos Estados Unidos do governo de George W. Bush entre 2001 e 2004.

Ele nasceu em Cuba, mas quando tinha 14, anos, sua família se mudou para os Estados Unidos por causa da revolução. Foi nos EUA que estudou e desenvolveu sua carreira.

Durante sua gestão como subsecretário, Reich enfrentou crises como o golpe de Estado na Venezuela, em 2002.

Atualmente, tem uma consultoria sediada em Washington.

Veja agora a entrevista sobre o programa de McCain que ele concedeu à BBC Mundo.

Sobre o candidato
Por que John McCain é melhor que Barack Obama para a América Latina?
Basicamente porque John McCain conhece a América Latina pessoalmente.

Nos últimos 25 anos ele esteve em todos os países da região, enquanto Barack Obama sequer se preocupou em fazer visitas ou em apresentar algum projeto relacionado à América Latina.

Sim, Obama nunca esteve na América Latina, mas ele afirmou que é muito importante distanciar-se da política do presidente George W. Bush e que quer que os países da região sejam mais sócios do que um "quintal" dos EUA.

Primeiramente, faz muito tempo que não se utiliza o termo "quintal" neste país (os EUA). Segundo, George W. Bush não é candidato a presidente dos Estados Unidos. Este é simplesmente um dos truques que emprega a campanha de Obama para atacar John McCain, porque Obama não tem uma política para a América Latina.

Quais vão ser as mudanças que McCain vai trazer à política externa dos EUA para a América Latina caso seja eleito presidente?
O mais importante é que ele não vai fechar os mercados dos Estados Unidos, como aparentemente quer fazer Obama.

Obama disse que quer renegociar o Tratado de Livre Comércio com o México, votou contra o tratado com a América Central e com a República Dominicana, é contra o tratado com a Colômbia.... Ele está seguindo as pautas dos sindicatos dos Estados Unidos, que são contra o livre comércio.

O pior que pode acontecer neste momento para a América Latina, sobretudo com a crise no sistema financeiro e dos mercados de crédito, é que a maior economia do mundo feche suas portas, como propõe Barack Obama.

John McCain apoia o tratado de livre Comércio com a Colômbia, mas se o Congresso não aprová-lo, então isto não vai passar de uma promessa...

Efetivamente, é preciso perguntar ao Partido Democrata por que estão tão contra os tratados de livre comércio que tanto ajudam os trabalhadores da América Latina e dos Estados Unidos.

Os tratados de livre comércio dos últimos anos foram aprovados por uma maioria republicana e uma minoria democrata. Mas, sem essa minoria de democratas, eles não podem passar.

Eu não entendo porque o senador Obama, a senhora Nancy Pelosi (presidente da Câmara dos Representantes) e outros líderes do Partido Democrata são contra dar mais empregos e mais oportunidades aos trabalhadores da América Latina.

O senhor diz que há grandes possibilidades de o tratado de livre comércio com a Colômbia se materializar se John McCain chegar à Casa Brana, mas essa é uma política muito parecida com a de George W. Bush. Quais seriam as diferenças entre os dois?
Quem quer que seja eleito presidente dos Estados Unidos no dia 4 de novembro vai enfrentar uma situação financeira muito grave no país e no resto do mundo. Não vai haver recursos econômicos para uma campanha de assistência ao estilo da Aliança para o Progresso (plano de ajuda econômica à AL na década de 1960) ou o Plano Marshall (plano de reconstrução da Europa após a Segunda Guerra).

Então, o que deve ser feito é buscar maneiras de aumentar os níveis de vida, de desenvolver as economias, por meio do setor privado, por meio da abertura dos mercados internacionais.

Uma pessoa como McCain, comprometida com esta abertura, tem mais possibilidades que Barack Obama de fazê-lo.

Mas há outras coisas, é preciso ajudar os nossos aliados. Por exemplo, dois deles, o México e a Colômbia, estão sendo atacados por nosso inimigos comuns: o narcotráfico, o crime organizado, o terrorismo...

John McCain está totalmente comprometido em ajudar mais os nossos aliados. É por isso que ele usou um tempo precioso de sua campanha para ir à Colômbia e ao México, para demonstrar com sua presença que como presidente ele ajudaria nossos amigos mais que eles já foram ajudados.

Também penso que ele (McCain) se oporia com mais força à conduta de um Hugo Chávez, por exemplo, que está ameaçando as instituições democráticas em seu país e também interferindo nos assuntos internos de muitos de seus vizinhos, sobretudo na América do Sul.

Venezuela
A propósito da Venezuela e de Hugo Chávez, o que podemos esperar de John McCain em comparação à política de George W. Bush?
Um dos resultados desta crise é que, devido à queda no preço do petróleo, Hugo Chávez não vai ter os recursos econômicos que teve nos últimos anos.

Isto tem afetado muito Chávez, que muito provavelmente terá que mudar sua atitude, terá que ser menos belicoso com seus vizinhos e, quem sabe, terá que mudar sua política exterior para poder sobreviver.

Eu creio que a relação petroleira entre Estados Unidos e Venezuela está em perigo. Chávez pensa que o seu petróleo é indispensável para os Estados Unidos, mas não é.

O consumo do petróleo nos EUA baixou 8% no último ano, isso significa que a Venezuela, que produz 7,5% do que consomem os Estados Unidos, pode ser substituída por outro país.

Não estou dizendo que vai ser substituída, mas Chávez precisa se cuidar muito.

Mas há realmente a possibilidade de que McCain deixe de comprar petróleo da Venezuela?
Estamos falando em termos hipotéticos, não se sabe o que vai acontecer no próximo ano.

Mas, se Hugo Chávez continuar usando o petróleo da Venezuela para uma corrida armamentista que está desestabilizando a região e ameaçando seus vizinhos e a seus próprios cidadãos, eu creio que quem quer que seja o presidente dos EUA, Obama ou McCain, terá que considerar ações diferentes.

Mas, acima de tudo, deixar de comprar petróleo de um país não é um ato bélico, é um ato não bélico que envia um sinal para nossos amigos e para nossos inimigos. E, além de tudo, o próprio Chávez se considera um inimigo dos EUA.

Cuba
Para terminar, qual a diferença das políticas de McCain e de George W. Bush para Cuba?
O problema com Cuba é que todos os governos, Estados Unidos, Cuba, etc., estão se preparando para uma verdadeira transição de uma ditadura de cinqüenta anos para um governo pós-ditatorial.

Não se sabe como vai ser. Há diferentes possibilidades, como as que existiram na Europa depois da queda do Muro de Berlim.

Não se sabe exatamente como vai terminar o governo de Cuba, mas está claro que o governo de Fidel Castro está terminado e que o de seu irmão, Raúl Castro, é transitório.

É preciso se preparar para uma verdadeira transição em Cuba para um governo baseado na liberdade individual, na propriedade privada e no sistema democrático que se conhece no Ocidente.

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