Londres, 28 nov (EFE).- O controvertido comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair, cuja carreira ficou marcada pela morte por erro do brasileiro Jean Charles de Menezes, inocente confundido com um terrorista, ocupou hoje pela última vez seu escritório.

Blair, que renunciou em outubro, após meses de pressão, ao constatar que não tinha o respaldo do prefeito de Londres, Boris Johnson, deixará oficialmente em 1º de dezembro ocargo que ocupava desde o início de 2005.

Hoje foi seu último dia na Scotland Yard, onde disse que desfrutou "em 99%" estar à frente de uma organização para a qual trabalhava desde 1974 e lamentou que as pessoas venham a lembrá-lo mais "pelo 1% restante".

Neste "1%" destaca-se a morte a tiros em um vagão do metrô de Londres do Jean Charles, baleado pela polícia, em um fato que Blair afirmou "lamentar terrivelmente" e que reiterou ter demorado um dia até saber que a vítima era um inocente.

O eletricista brasileiro, então com 27 anos, foi morto em 22 de julho de 2005 por dois agentes que o confundiram com um terrorista.

O fato ocorreu um dia após a polícia frustrar um atentado na capital britânica, no meio da onda terrorista vivida pelos ataques a bomba na rede de transporte de Londres que mataram 52 pessoas duas semanas antes.

Horas depois da morte de Jean Charles na estação de Stockwell, no sul de Londres, Blair disse que o fato estava "diretamente relacionado" às operações antiterroristas do chamdo 21-J (alusão ao dia anterior, 21 de julho), embora um dia depois tenha retificado e admitido que os agentes mataram um inocente, pelo que pediu desculpas públicas.

A família e os amigos de Jean Charles, porém, sempre acusaram o comando policial de mentir em relação à morte do jovem.

Um grupo de pessoas que fazem parte do movimento Justice4Jean (Justiça para Jean) visitaram hoje a Scotland Yard para entregar "um presente de despedida" a Blair e lembrar os erros cometidos mo dia do homicídio e na investigação posterior.

Ian Blair, que manteve uma boa relação com o ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e com o ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, -ambos trabalhistas- também teve que lidar nos últimos meses com uma acusação de discriminação racial por um de seus comissários adjuntos de origem asiática, Tarique Ghaffur.

Ghaffur acusou-o de submetê-lo a tratos "humilhantes e degradantes" e de tentar todo o tempo solapar sua autoridade.

Além disso, Blair foi objeto de uma investigação pelo suposto uso de dinheiro público para contratar um amigo com o objetivo de melhorar sua imagem perante a opinião pública.

Outro episódio polêmico que marcou sua gestão em Scotland Yard foi a rebuscada operação policial na qual 250 agentes tomaram a casa de uma família muçulmana em Forest Gate (leste de Londres) em uma batida relacionada a um suposto ataque terrorista que seria cometido de forma iminente com armas químicas.

Deste crime foram acusados inicialmente os irmãos Mohammed Abdul Kahar, de 23 anos, e Abul Koyair, de 20, que foram postos em liberdade sem acusações uma semana depois.

Ele também será lembrado por um comentário sobre o assassinato de duas meninas negras de 10 anos pelo zelador do colégio delas.

Blair disse, em janeiro de 2006, que "quase ninguém podia entender" que os assassinatos destas duas meninas "se transformasse na história mais importante da Grã-Bretanha" nos meios de comunicação, um comentário pelo qual também se viu obrigado a pedir desculpas.

Hoje manifestou que o comentário foi "desnecessário", mas declarou-se "orgulhoso por ter chamado a atenção sobre o 'fato' de que (na imprensa) o assassinato de jovens negros, em geral, não é tão importante como o assassinato de jovens brancos". EFE fpb/jp

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