Marcada por fracassos, perseguição a Bin Laden durou 15 anos

Várias tentativas frustradas de prender ou matar o terrorista colocaram em dúvida a eficácia das forças armadas americanas

BBC Brasil | 02/05/2011 21:52

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Os Estados Unidos tentaram capturar ou matar Osama Bin Laden por mais de 15 anos, antes de localizá-lo em uma casa no noroeste do Paquistão, bem perto de uma Academia Militar do país. Embora oportunidades para pegar o número 1 da Al-Qaeda não tivessem ocorrido nos últimos anos, várias outras surgiram antes de 2002 - levantando questões sobre o poder e a eficácia das forças armadas americanas e de sua inteligência.

Foto: Divulgação/Casa Branca

Presidente Barack Obama e Hillary Clinton observam com atenção imagens da operação que culminou na morte de Osama bin Laden

Em 1996, o Centro de Contraterrorismo da CIA (CTC, sigla em inglês) criou uma "Estação da Questão Bin Laden", uma unidade especial formada por uma dúzia de autoridades, para analisar dados de inteligência e planejar operações contra o milionário saudita. À época, acreditava-se que Bin Laden estava financiando militantes no Oriente Médio e na África.

No fim de 1997, depois que Bin Laden foi forçado a se mudar do Sudão para o Afeganistão, e conclamou os muçulmanos a "lançar uma guerrilha contra forças americanas", a unidade formulou planos para que integrantes de tribos afegãs o capturassem e o entregassem aos Estados Unidos.

Embora o chefe do CTC visse esta como "a operação perfeita", o diretor da CIA decidiu não prosseguir com ela, de acordo com um relatório posterior divulgado pela comissão de investigação sobre o 11 de Setembro.

Clinton
Em agosto de 1998, mais de 220 pessoas foram mortas quando caminhões-bomba foram levados às embaixadas no Quênia e na Tanzânia. Depois de determinar que a Al-Qaeda era responsável, o então presidente Bill Clinton autorizou ataques com mísseis contra acampamentos de militantes no Afeganistão, incluindo o complexo onde ficava Bin Laden.

Os ataques falharam em matar líderes da Al-Qaeda e levaram Bin Laden a trocar de lugar frequentemente e sem previsão, além de designar mais guarda-costas. Ele também mudou seus modos de se comunicar. Mesmo assim, informantes tribais tinham maneiras de dar atualizações sobre o seu paradeiro.

Em dezembro de 1998, foi relatado que Bin Laden poderia estar passando a noite na casa do governador de Kandahar (Afeganistão). Mas um ataque com mísseis foi descartado depois que generais previram que 200 pessoas poderiam morrer ou ficar feridas. Algumas autoridades menos importantes da CIA acharam que os Estados Unidos poderiam se arrepender desta decisão.

Uma oportunidade parecida para bombardear um acampamento ao sul de Kandahar, em fevereiro de 1999, foi perdida porque Bin Laden saiu do local antes que a operação fosse aprovada.

Talvez a melhor oportunidade tenha ocorrido em maio de 1999, quando informantes da CIA relataram a localização de Bin Laden durante cinco dias e noite, dentro e ao redor de Kandahar. Embora autoridades do Pentágono e da CIA expressassem poucas dúvidas sobre o sucesso da operação, ela não foi autorizada.

Daí em diante, até os ataques de 11 de setembro de 2001, o governo americano não voltou a considerar ativamente um ataque com mísseis contra Bin Laden. Usar efetivos dos Estados Unidos em terra também foi descartado, devido ao risco de fracasso.

Michael Scheuer, que fundou e liderou a unidade Bin Laden até 1999, disse à BBC: "Clinton é mais como um cidadão do mundo, e ele estava preocupado sobre o que o mundo muçulmano pensaria se nós errássemos e matássemos um civil."

"Depois que deixou a presidência, ele costumava dizer que deu o seu melhor. Mas acontece que eu estava lá à época, e Bin Laden deveria ser hoje apenas uma memória irritante de meados de 1998 ou início de 1999."

Após os atentados
Em 18 de setembro de 2001, uma semana após os atentados em Nova York e Washington, o então presidente George W. Bush declarou que Bin Laden era procurado "vivo ou morto".

No mês seguinte, a Força Aérea americana iniciou uma campanha massiva de bombardeios contra bases da Al-Qaeda no Afeganistão, como parte de uma missão para destruir o grupo, matar Bin Laden, eliminar outros líderes da organização e derrotar o Talebã.

Embora os Estados Unidos e seus aliados tenham declarado vitória em dezembro daquele ano, Bin Laden não foi nem capturado, nem morto. Ele estava, no entanto, encurralado em um complexo de cavernas e túneis na área montanhosa de Tora Bora, no leste do Afeganistão.

No entanto, menos de cem comandos americanos estavam em terra com seus aliados afegãos, e pedidos de reforço para deslanchar um ataque foram rejeitados.

Em vez disso, os comandantes optaram por confiar em bombardeios e na ação de milícias afegãs para atacar Bin Laden, além das forças de fronteira do Paquistão, que deveriam fechar as rotas de fuga.

No dia 16 de dezembro, dois dias depois de escrever o seu testamento, Bin Laden e seus guarda-costas saíram a pé de Tora Bora e desapareceram pela fronteira com o Paquistão.

Poucas pistas
Depois de Tora Bora, a caçada se mudou para o Paquistão. Vários altos líderes da Al-Qaeda foram presos ou mortos, incluindo o suposto mentor do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, mas haviam poucas pistas sobre Bin Laden.

O governo do Paquistão desmentiu relatos de que ele estava no país, mas é amplamente sabido que ele estava mudando de vilarejo em vilarejo na região do Waziristão do Norte, com um pequeno grupo de guarda-costas, onde ele vivia sob a proteção de líderes tribais.

Ex-agentes da CIA afirmam que o maior obstáculo para encontrar Bin Laden era que qualquer um que considerasse traí-lo pela recompensa oferecida de US$ 25 milhões (R$ 39 milhões) temia dar informações à polícia, que poderia ser simpática ao líder da Al-Qaeda, ou até paga por ele.

Além disto, os próprios agentes eram impedidos de ir além de seus refúgios no Paquistão, devido à ameaça de assassinato e resistência por parte do braço de inteligência das forças armadas paquistanesas (ISI), que queria liderar a operação.

Conspirações
Autoridades americanas acreditavam que o fracasso em capturar ou matar Bin Laden e seu número dois, Ayman al-Zawahiri, era resultado de conspirações de seus colegas paquistaneses, em particular dentro da ISI. Alguns acreditavam que a própria ISI estaria dando guarida aos dois procurados.

"Não estou dizendo que eles estão nos níveis mais altos, mas eu acredito que em algum lugar neste governo há pessoas que sabem onde Osama Bin Laden e a Al-Qaeda estão", disse a secretária de Estado, Hillary Clinton, em maio de 2010.

A descoberta de que Bin Laden vinha vivendo em um complexo grande, personalizado e protegido por muros em Abbottabad, perto da Academia Militar paquistanesa, e possivelmente desde 2005, reforçou as suspeitas sobre a ISI.

Autoridades americanas disseram que levaram oito meses para agentes dos Estados Unidos e do Paquistão para confirmar a localização do líder da Al-Qaeda, e que eles o encontraram ao seguir um de seus mensageiros mais confiáveis, cujo nome foi revelado por prisioneiros.

No entanto, o ex-oficial de campo da CIA Bob Baer disse à BBC estar cético sobre estas afirmações.

"Agências de inteligência como a CIA e as Forças Armadas americanas vão simplesmente divulgar desinformações para proteger as fontes reais, que podem ter sido qualquer coisa, desde interceptações até o próprio governo paquistanês", disse. 

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