Mantega pede pressa em reformas financeiras

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta quinta-feira que a reforma no FMI (Fundo Monetário Internacional) deve ser antecipada e começar imediatamente. Dominique Strauss-Khan (diretor-gerente do FMI) quer colocar isso para janeiro de 2011.

BBC Brasil |

Eu acho que é tarde. Se quisermos de fato a reforma no início de 2011, temos que começar agora", disse Mantega, em Washington, onde participa de uma reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G20 (grupo que reúne países ricos e em desenvolvimento).

"Agora temos a maturidade e a força política para fazer a reforma, porque isso foi decidido por esses líderes do G20", afirmou.

Segundo o ministro, muitos desses líderes podem deixar o grupo, já que há eleições previstas em vários países.

"Mesmo Dominique Strauss-Khan pode deixar o FMI no próximo ano, porque talvez seja candidato na França", disse.

"Podemos perder o apoio político que temos agora para fazer essa reforma", afirmou o ministro, que nesta quinta-feira presidiu uma reunião do G24, grupo de países em desenvolvimento de porte médio.

Reunião do G20
Mantega disse que vai propor no comunicado final da reunião do G20 que se coloque a questão da reforma imediatamente em pauta.

A ideia, segundo o ministro, é ter uma proposta para apresentar aos chefes de Estado e de governo do G20 em junho, quando se reunirão no Canadá.

Nesta quinta-feira, Mantega se reuniu com o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, e disse que discutiu a necessidade estabelecer com os países do G20 uma data para implementar uma ampla reforma financeira mundial.

"Nós devíamos levar a proposta ao G20 de bater o martelo e estabelecer uma data para fazer a reforma financeira em nível mundial", disse o ministro.

Cotas
A reforma do FMI é uma demanda de países emergentes como o Brasil, que afirmam que a estrutura do Fundo é ultrapassada e ainda reflete a ordem mundial do período da Segunda Guerra e querem mais voz e mais poder de decisão.

A reivindicação ganhou mais destaque ainda após a crise econômica internacional, quando esses países sofreram relativamente menos e se recuperaram mais rápido do que as economias avançadas.

No ano passado, ficou decidida uma mudança na divisão de cotas do Fundo. Por essa mudança, 5% das cotas de países "super-representados" serão transferidas para países "sub-representados".

Falta ainda, porém, definir os critérios dessa transferência.

Segundo o ministro, o Brasil defende o critério do peso do PIB (Produto Interno Bruto) e da contribuição de cada país no desenvolvimento mundial para a divisão das cotas.

Banco Mundial
"Vamos aproveitar o embalo de que o Banco Mundial conseguiu chegar a um acordo para a sua reforma", disse Mantega.

O Banco Mundial (Bird), outra instituição na qual países emergentes exigem maior poder de decisão, decidiu no ano passado aumentar as cotas dos países em desenvolvimento e em transição para 47%.

Esses países pedem participação de 50%, mas consideram o percentual anunciado um "primeiro passo positivo".

"Essa promessa (dos 47%) deve ser mantida", disse nesta quinta-feira o presidente do Bird, Robert Zoellick.

Segundo Zoellick, o tema será um dos quatro principais assuntos discutidos até domingo, quando o Bird realiza, em conjunto com o FMI, sua reunião de primavera, em Washington.

Sistema financeiro
As mudanças no FMI e no Bird são apenas parte das reformas em discussão durante as reuniões em Washington, que ocorrem no momento em que o próprio governo americano aumenta a pressão para reformar seu sistema financeiro.

Nesta quinta-feira, em um discurso em Nova York, o presidente Barack Obama pediu o apoio de Wall Street a sua proposta de reforma.

O presidente americano disse que as mudanças vão evitar que os contribuintes americanos sejam obrigados a pagar por futuros pacotes de resgate a instituições financeiras, como ocorreu durante a fase mais aguda da crise econômica mundial.

"Essa reforma de fato é importante para evitar que novas crises aconteçam. Nós apoiamos essa reforma", disse Mantega.

"Se a reforma tem peculiaridades em cada país, ela tem também alguns traços comuns que podem ser aprovados no G20."
O diretor-gerente do FMI, no entanto, em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira, citou o caso dos Estados Unidos ao afirmar que se cada país implementar sua própria reforma, há o risco de prejudicar uma ação coordenada de todos os países para abordar a questão.

Strauss-Khan disse que a reforma proposta por Obama, por um lado, vem "muito cedo", mas por outro lado, não está longe do que o próprio FMI está propondo.

"Então não acho que crie um grande problema", disse o chefe do FMI.

Taxação
O FMI preparou para os ministros do G20 uma proposta de cobrar novos impostos de bancos e outras instituições financeiras.

Os impostos teriam o objetivo de garantir recursos para financiar eventuais pacotes futuros de resgate e também restringir os riscos assumidos por essas instituições, o que ajudaria a prevenir crises futuras.

Após a discussão no encontro de Washington, a versão final dessa proposta seria apresentada na reunião dos chefes de Estado e de governo do G20, em junho.

Segundo Mantega, os países deveriam discutir uma taxação em âmbito mundial para operações de maior risco.

"É o que querem fazer aqui nos Estados Unidos. Acho que nós temos que discutir em âmbito mundial, senão, não vale a pena fazer isso", afirmou.

Outra reforma citada pelo ministro é o maior controle sobre operações com derivativos, que em sua maioria são feitas sem registro em países como os Estados Unidos.

"No Brasil é tudo registrado, só que não adianta ter registrado no Brasil se a empresa ou o banco brasileiro faz a operação fora", disse.

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