Manipuladora e fria, Rebekah Brooks não se sai bem sob pressão

Rebekah Brooks - como passou a ser chamada após seu segundo casamento - cortejava o poder, mas evitava a exposição pública

BBC Brasil |

O escândalo de escutas ilegais no grupo News International, de Rupert Murdoch, a deixou vulnerável, e sob os holofotes públicos, fazendo com ela deixasse o cargo de presidente-executiva e fosse presa, dois dias depois, suspeita de envolvimento em corrupção e na interceptação de comunicações.

O comentarista Henry Porter, que escreveu extensivamente sobre o poder do grupo Murdoch, diz que pouco se sabe sobre a vida pessoal de Brooks. "Ela é uma das pessoas mais poderosas desse país, na verdade, porque é o preposto de Rupert Murdoch na Grã-Bretanha. E ainda assim, temos pouquíssima ideia de quem ela é, como pessoa".

AFP
Rebekah Brooks foi detida pela Scotland Yard neste domingo

O mistério que ele descreve certamente se aplica à juventude de Rebekah Brooks. Sabemos que ela foi à escola em Cheshire, mas pouco foi publicado sobre sua adolescência. No entanto, uma amiga próxima de juventude, Louise Weir, a descreve como mais "emocionalmente inteligente" do que acadêmica. "Ela é muito envolvente, e sempre conseguiu tirar o que queria das pessoas, mesmo se elas não gostassem dela", diz Weir. "Ela é uma típica geminiana, tem um lado adorável e fofo, e um lado raivoso".

Ambição

O trecho incrivelmente curto e opaco do expediente que se referia a Rebekah Brooks menciona um período na Sorbonne, a famosa universidade parisiense, mas não diz se ela se formou. Colegas em seu primeiro emprego sério como jornalista lembram que ela surgiu súbita e misteriosamente, como um gênio de uma lâmpada.

Graham Ball era um dos editores do jornal Post, de Eddie Shah, quando Rebekah, então com 20 anos, o abordou em seu escritório. "Ela chegou para mim e disse 'Vou começar a trabalhar com você na editoria de comportamento como secretária ou administradora'. Eu respondi 'Temo que isso não seja possível, porque na próxima semana estou indo para Londres', e não pensei mais no assunto. Na segunda-feira seguinte, cheguei a nosso novo escritório em Londres, e lá estava ela", contou. "Ela fazia tudo com muita finesse, era muito esperta".

Quando o "Post" fechou, a então Rebekah Wade foi para o News of the World. O ex-editor do Mirror Roy Greenslade, a encontrou alguns anos depois de ela ter se juntado à equipe da News International. "Ela encoraja você, para que você acredite que está no time dela, que ela está do seu lado. Ela dizia 'O que eu devo fazer a respeito disso? Como devo lidar com isso?' E é claro que quando você dá a alguém conselhos como esses, tem muito menos abertura para ser crítico depois".

Quando Rebekah Wade assumiu o cargo de editora do News of the World em 2000, tornou-se a mais jovem editora de um jornal nacional britânico. Pouco tempo depois de sua nomeação, a menina Sarah Payne, de 8 anos, foi assassinada por Roy Whiting. Em meio à revolta pública que se seguiu, Rebekah Wade lançou uma campanha para que pessoas condenadas por crimes sexuais contra crianças tivessem seus nomes revelados ao público. Muitos acusaram o jornal de estar encorajando as pessoas a fazerem justiça com as próprias mãos, e um inspetor a chamou de "imensamente irresponsável".

O trabalho de Rebekah Wade como editora do News of the World também a fez entrar em contato com o político trabalhista John Prescott pela primeira vez. O jornal descobriu que sua mulher Pauline tinha entregue uma criança para adoção quando era adolescente, e Rebekah Wade entrou em contato com o então vice-premiê.

Prescott disse que ficou impressionado com a forma com que Rebekah tratou a história, chamando-a de "muito razoável e profissional", apesar de ter sido dito mais tarde que a história foi na verdade editada por outras pessoas.

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Rebekah Wade foi para o tabloide The Sun em 2003. Pouco depois, compareceu diante do Comitê de Cultura, Mídia e Esporte do Parlamento britânico, e o que ela disse sob interrogatório dos parlamentares a assombra até hoje. Andy Coulson, seu sucessor no News of the World, foi forçado a sair em seu resgate, depois de ela ter sugerido que policiais tinham sido pagos para dar informações a jornalistas no passado.

"Ela é obviamente uma política envolvente e extremamente hábil em se relacionar com as pessoas, mas quando se trata de estar sob o olhar do público e ter que pensar rápido, não acho que ela seja tão boa". Rebekah Brooks escreveu para o comitê de Assuntos Internos do Parlamento, para dizer que ela falava de maneira geral. Mas a polícia decidiu abrir uma investigação criminal. Diz-se que Rebekah Brooks gosta de cavalgar no campo em Oxfordshire com David Cameron, e ela convidou o premiê para sua festa de Natal. Tudo na melhor tradição dos Murdoch, segundo Henry Porter. "O império Murdoch, sempre visto como uma organização conservadora, na verdade é notavelmente adaptável a visões políticas diferentes, e não tem uma presença ideológica muito forte".

Mas o escândalo dos grampos tornou-se uma ameaça muito real aos interesses do império de Murdoch e sua influência.

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