Mal-estar continua na Irlanda após carta do papa sobre abusos

Dublin, 22 mar (EFE).- A carta do papa Bento XVI continua gerando descontentamento hoje entre a sociedade na Irlanda, onde se lamenta que não tenham sido abordados aspectos importantes sobre os abusos sexuais contra menores cometidos por sacerdotes.

EFE |

O texto, divulgado pelo Vaticano há dois dias, foi lido em todas as missas deste domingo nas igrejas da República da Irlanda e da Irlanda do Norte. No mesmo dia, o bispo de Clogher, Joseph Duffy, reconheceu ter acobertado os abusos de um sacerdote na diocese de Enniskillen (Irlanda do Norte), em 1989.

A declaração de Duffy segue às feitas no mesmo sentido na semana passada pelo bispo de Derry, Seamus Hegarty, e o primaz da Igreja Católica irlandesa, o cardeal Séan Brady, que, no entanto, se negaram a renunciar a menos que o próprio papa peça.

O principal partido de oposição no Parlamento de Dublin, o conservador Fine Gael, voltou a denunciar hoje a "interferência" da Santa Sé nos assuntos internos de um Estado soberano, ao se negar a cooperar com as autoridades que investigam os abusos sexuais.

Um porta-voz da legenda lembrou hoje que o arcebispo Giuseppe Leanza, núncio do papa na Irlanda, atrapalhou o trabalho da comissão investigadora sobre abusos a menores, que publicou em novembro passado o chamado Relatório Murphy.

O texto revelou que a Igreja Católica irlandesa gozou de imunidade durante décadas para esconder, em conivência com o Estado, os abusos sexuais contra menores cometidos por padres da diocese de Dublin, a mais importante do país.

Após seis anos de investigação, a comissão lamentou a falta de cooperação do Vaticano, apesar de ter solicitado por escrito, em 2006, à Congregação para a Doutrina da Fé, instituição que o próprio papa Bento XVI, então cardeal, chegou a presidir.

"Não consideramos aceitável que o Vaticano use sua autoridade eclesiástica para interferir nos assuntos internos deste Estado e que invoque os protocolos diplomáticos quando lhe convenha, que esconda informação de uma comissão governamental", ressaltou o porta-voz de assuntos para infância do Fine Gael, Alan Shatter.

Grupos de vítimas voltaram a se dizer hoje decepcionados com a carta, na qual o papa, segundo eles, se esquece da responsabilidade do Vaticano e da hierarquia católica irlandesa nos abusos sexuais.

Vítima dos abusos, Michael O'Brien opinou hoje que Bento XVI não entende a magnitude do problema ao propor aos católicos irlandeses que durante os próximos 12 meses façam jejum e orações para a renovação da Igreja.

"Se entendesse, sua carta teria sido totalmente diferente", afirmou. EFE ja/rr

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