Mais de 1,25 milhão de birmaneses continuam sem ajuda após ciclone, diz ONU

MIANMAR - Mais da metade dos 2,5 milhões de sobreviventes do ciclone que arrasou a região do delta do rio Irrawaddy, no sul de Mianmar, não recebeu nenhuma ajuda até agora, passadas mais de três semanas desde a catástrofe, informou neste domingo a ONU. O Nargis já deixou pelo menos 133.600 mortos e desaparecidos e 2,4 milhões de desabrigados

Redação com agências internacionais |


"Está claro que a fase de ajuda continua sendo de emergência", disse o chefe de assuntos humanitários das Nações Unidas, John Holmes, em seu discurso na conferência internacional de países doadores, realizada na cidade birmanesa de Yangun.

Segundo estimativas da ONU, só um milhão dos quase 2,5 milhões de pessoas que sobreviveram à devastadora passagem do ciclone, nos dias 2 e 3 de maio, estão recebendo alimentos, cobertores e remédios.

A situação descrita pelas Nações Unidas contrasta com a apresentada pela Junta Militar militar que governa o país, já que, na sexta-feira, o primeiro-ministro birmanês, general Thein Sein, disse que o Exército e outras instituições estatais atenderam às necessidades imediatas das vítimas e que o governo se preparava para dar início à fase de reconstrução.

AFP

Pessoas fazem filas nas estradas para receber alimentos em Mianmar

Reconstrução do país

A comunidade internaacional exortou neste domingo Mianmar a salvar os sobreviventes do ciclone cumprindo com sua promessa de liberar o acesso de todos os trabalhadores humanitários estrangeiros ao país, durante uma conferência internacional ao término da qual a junta esperava arrecadar bilhões de dólares para sua reconstrução.

"Temos que priorizar o objetivo imediato, que é salvar vidas", afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na abertura da reunião.

Quando esta conferência foi anunciada, na semana passada, pela ONU e pela Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), a antiga Birmânia avaliou em 10,7 bilhões de dólares os danos provocados pelo ciclone Nargis.

No entanto, ao término dos debates deste domingo, nenhuma promessa precisa de doação a este país pobre, arrasado nos dias 2 e 3 de maio por uma das piores catástrofes naturais da história recente, foi anunciada.

"Nosso desafio imediato é humanitário", lembrou Ban Ki-moon, avisando que "vai demorar pelo menos seis meses para alimentar e cuidar das pessoas que perderam tudo".

"As infra-estruturas precisam ser reconstruídas, mas isso não pode ser nossa maior preocupação", alertou o secretário-geral.

Para John Holmes, o encarregado dos assuntos humanitários da ONU, "ainda estamos na fase de emergência desta crise".

Os dirigentes militares birmaneses estão conscientes da "necessidade de atuar com urgência", garantiu Ban Ki-moon.

"Espero, e acredito, que qualquer dúvida que o governo birmanês possa ter tido em relação a esta emergência faça agora parte do passado", acrescentou.

Querendo mostrar otimismo, Ban Ki-moon elogiou o "novo espírito de cooperação" entre a junta e a comunidade internacional.

Até a China, vizinha e aliada da junta militar de Mianmar, é favorável a "um maior papel" da ONU no país asiático, frisou o ministro chinês das Relações Exteriores, Yang Jiechi.

Obstáculos do governo

Ban Ki-moon havia obtido sexta-feira o sinal verde do número um birmanês, Than Shwe, para a entrada de "todos os trabalhadores humanitários" no país asiático.

Os generais "estão totalmente dispostos a aplicar o acordo concluído" sexta-feira com Than Shwe, sustentou Ban Ki-moon.

Porém, na primeira declaração direta das autoridades desde então, o primeiro-ministro Thein Sein se mostrou mais comedido. "Mianmar está disposto a aceitar os grupos (humanitários) interessados na reconstrução e na reabilitação, conforme as nossas prioridades e a amplitude do trabalho que deve ser realizado", comentou.

Reprodução/Google Maps
Mianmar está localizada no sudeste asiático



"Vamos examinar a possibilidade de deixá-los vir", acrescentou.

Ban Ki-moon se disse "muito animado" com esta declaração.

O acordo de princípio dos generais representa uma concessão, depois de semanas de bloqueio.

ONG e diplomatas também advertiram para qualquer excesso de otimismo, e querem ver se o regime vai mesmo cumprir com suas promessas.

Para a comunidade internacional e as organizações humanitárias, o mais importante é chegar o mais rápido possível ao delta do Irrawaddy, no sudoeste do país.

"A aplicação rápida e completa (das promessas da junta) é fundamental", admitiu Ban Ki-moon, reafirmando seu compromisso "estreito e contínuo" com a resolução da crise humanitária birmanesa.

"Os participantes da conferência querem que as promessas sejam traduzidas em atos", avisou Holmes.

Os Estados Unidos, que enviaram mais de 20 aviões de assistência e 20 milhões de dólares a Mianmar, "estão dispostos a doar muito mais", frisou a diplomata americana Shari Villarosa, que quer "atuar rapidamente para evitar mais perdas humanas".

Para o embaixador da Comissão Européia, Friedrich Hamburger, a conferência é "um passo na direção certa". A França, por sua vez, considerou que "o acesso livre dos trabalhadores humanitários estrangeiros à área do delta permanece indispensável".

(*Com informações das agências AFP e EFE)

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