Formidável impulso de liberdade, ou símbolo da decadência e do relativismo: 40 anos depois do Maio de 68, essa revolta estudantil que agitou a sociedade francesa continua a provocar debates apaixonados, atiçados pela insistência de Nicolas Sarkozy em liquidar sua herança.

O 40º aniversário dos acontecimentos de Maio de 68 é marcado, na França, por uma avalanche de publicações - mais de 100 livros se dedicam ao tema -, edições especiais de jornais e programas na TV, um sinal do interesse intacto por esse marco da história contemporânea do país.

Esse movimento estudantil, que se propagou por toda a sociedade e provocou uma greve geral que paralisou o país por um mês, alcançou a dimensão de um mito, opondo dois campos: "os guardiães do templo" e "os revanchistas", avalia o sociólogo Jean-Pierre Le Goff.

"A sociedade francesa oscila entre fascinação e rejeição, não consegue criar um distanciamento crítico, inserir o 68 na História", avalia o autor do livro "Mai 68, l'héritage impossible" ("Maio de 68, a herança impossível", ainda sem tradução em português).

Com suas barricadas no Quartier Latin, em Paris, faculdades ocupadas por estudantes e slogans libertários que se tornaram célebres, como "é proibido proibir", o evento de Maio de 68 é, regularmente, acusado pela direita francesa de ter causado a destruição dos valores morais e a falência do sistema educacional.

Quando era candidato, o agora presidente Nicolas Sarkozy fazia um apelo aos franceses, em abril de 2007, para "romper" com o "cinismo" do Maio de 68, que teria "acabado com a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o bonito e o feio". Os protestos foram imediatos na esquerda.

Os acontecimentos de Maio também serviram de estopim para evoluções que poucos pensam em questionar hoje. A sociedade francesa dos anos de 1960, sob o general De Gaulle, era uma sociedade "rígida, fechada", lembra o historiador Michel Winock.

Na época, as mulheres não podiam trabalhar de calça comprida, a pílula tinha acabado de ser autorizada, o divórcio por consenso mútuo não existia, os feriados pagos não eram para todos, e a censura vigorava, sobretudo na TV.

Para eles, Maio de 68 teve uma influência "mais do que positiva" na divisão de tarefas entre homens e mulheres (80%), na sexualidade (72%), ou na relação entre pais e filhos (64%).

Quarenta anos depois, os estudantes franceses ainda vão às ruas para se manifestar, mas a crítica radical ao sistema acontece por meio de combates mais pragmáticos.

"A juventude mudou muito em relação a 68. Suas condições de vida se degradaram muito; suas preocupações em relação ao futuro - com o desemprego - são maiores; o que explica as formas de engajamento mais materiais", analisa Jean-Baptiste Prévost, presidente do sindicato estudantil Unef.

Hoje, a sociedade "tem outros problemas", diferentes daqueles de 1968, resume o ex-líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, hoje eurodeputado alemão.

No livro "Forget 68", esse homem ainda considerado por muitos como a encarnação do Movimento de Maio (e, por isso mesmo, onipresente no momento na mídia francesa), pede que virem a página.

Nesse sentido, ele rejeita, com ironia, as críticas de Sarkozy. Para ele, o presidente de direita, que se divorciou duas vezes, é um "sessenta e oitentista, que retomou o slogan de 68 'gozar sem freios' para si mesmo".

alm/tt

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