Mãe de Guevara recebe restos de filho morto em cativeiro das Farc

BOGOTÁ - Em meio a uma solenidade oficial, a senhora Emperatriz de Guevara recebeu nesta quinta-feira em um cofre os restos de seu filho e major de polícia Julián Ernesto Guevara, morto em cativeiro em 2006 aos 41 anos, após ser sequestrado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 1998.

iG São Paulo |

No aeroporto Vanguardia, na cidade de Villavicencio, o monsenhor Leonardo Gómez Serna fez uma oração em memória ao coronel de polícia, cujos restos foram entregues nesta quinta-feira pelas Farc a uma missão humanitária liderada pela senadora colombiana Piedad Córdoba, do Partido Liberal.

Reuters
Emperatriz Guevara abraça senadora colombiana Piedad Córdoba

Emperatriz Guevara abraça senadora colombiana Piedad Córdoba

A missão humanitária partiu em um helicóptero providenciado pelo Brasil desde o aeroporto de Villavicencio, capital do Departamento (Estado) de Meta, a 70 quilômetros a sudeste de Bogotá, para receber os restos mortais de Guevara. O helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB)  pousou na cidade de Villavicencio às 15h15 locais  (17h15 de Brasília), procedente do Departamento de Guaviare.

Assim que o aparelho pousou, Emperatriz foi abraçar Piedad Córdoba, da ONG Colombianos e Colombianas pela Paz, e o bispo Leonardo Gómez, membros da comissão humanitária que promoveu o resgate.

Guevara, que tinha a patente de capitão quando foi capturado pelas Farc, em 1º de novembro de 1998, morreu há quatro anos. Após sua morte, o Exército o promoveu a major e, posteriormente, a coronel.

As forças militares colombianas suspenderam suas operações por 36 horas em uma região do sudoeste do país para facilitar a missão humanitária.

Fim do drama

O oficial Guevara foi sequestrado pelas Farc em novembro de 1998, durante um ataque à cidade de Mitú, capital do Departamento do Vaupés, na selva colombiana.

EFE
Helicóptero brasileiro cedido para missão
Na ocasião, a guerrilha controlou a cidade de mais de 15 mil habitantes por mais de 72 horas e sequestrou 61 policiais. Desse grupo, alguns oficiais foram libertados durante um acordo humanitário de 2001.

O grupo guerrilheiro, o maior que combate no país sul-americano, informou que Guevara morreu "de uma doença estranha" em janeiro de 2006 e desde então sua mãe vinha suplicando pela devolução dos restos mortais de seu filho para fazer seu sepultamento cristão.

"Penso que não encerramos o ciclo, e sim que o abrimos. Espero, com a vontade de Deus, ter a força moral necessária para encerrar isso no menor tempo possível, embora um filho nunca seja esquecido", disse a mãe, com lágrimas nos olhos, ao chegar a Villavicencio na noite de quarta-feira.

"Passamos quase 12 anos esperando, e apagar a memória de meu filho é muito complicado. Espero seguir adiante com a ajuda de Deus, que tem sido meu apoio durante toda a vida."

Quando a missão retornou da selva, a mãe do policial morto teve um período para reunir-se com outros familiares diante dos restos mortais, que serão entregues ao Instituto de Ciências Forenses para que seja feito um exame de DNA para comprovar que realmente pertencem a Guevara.

Segundo o Alto Comissionado para a Paz na Colômbia, Frank Pearl, os médicos forenses trabalharão "dia e noite" para que em sete dias os trabalhos de identificação sejam concluídos. Se confirmada sua identidade, a família Guevara deverá realizar o funeral no mausoléu da polícia colombiana.

"Esperamos que agora comece um novo ciclo. Devemos ter força", afirmou Emperatriz, que se tornou um dos ícones da luta dos familiares pela libertação dos reféns da guerrilha.

Libertações

Com esse resgate, as Farc encerram o processo de libertações unilaterais e incondicionais que vinham ocorrendo desde o ano passado, quando seis reféns foram soltos.


Gustavo Moncayo comemora libertação do filho Pablo / Foto: EFE

Há dois dias, depois de 12 anos de cativeiro, foi libertado o militar Pablo Emilio Moncayo , considerado o refém mais antigo das Farc juntamente com o soldado Libio José Martínez Estrada, que ainda permanece como refém. No domingo, foi solto o soldado Josué Daniel Calvo , após 11 meses de sequestro. Ambos resgates contaram com o apoio do Brasil.

A partir de agora, a guerrilha pretende negociar com o governo de Álvaro Uribe um acordo humanitário cuja base é a libertação de 22 oficiais que ainda estão em seu poder em troca da libertação de centenas de rebeldes presos. Uribe disse estar disposto a negociar com a guerrilha sob a condição de que os rebeldes soltos abandonem definitivamente a luta armada.

Pouco antes de iniciar o voo até o local de resgate, na manhã desta quinta-feira, Piedad Córdoba voltou a insistir na necessidade de acelerar as negociações para que o acordo humanitário seja concretizado antes do término do mandato de Uribe, que deve deixar a presidência em 7 de agosto. "Vamos colocar o pé no acelerador do intercâmbio (humanitário) nesses poucos dias que restam de governo. A paz na Colômbia é possível", afirmou.

Desde que assumiu o poder, em 2002, Uribe, que conta com apoio político, financeiro e militar dos Estados Unidos, tem empreendido uma dura ofensiva contra as guerrilhas. A base que estrutura sua política de Segurança Democrática é a saída militar e não negociada para acabar com a guerra no país.

*Com informações da Reuters, EFE e BBC

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