BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, anunciaram nesta terça-feira a intenção de estudar o possível uso de moedas locais no comércio bilateral, para quebrar a dependência em relação ao dólar.

Durante a visita de Estado que Uribe fez à Brasília, Lula sugeriu a adoção do mesmo mecanismo que Brasil e Argentina passaram a usar em outubro do ano passado. A ideia permitiria que exportadores e importadores realizassem suas operações em suas respectivas moedas, sem precisar recorrer aos dólares.

"Temos que pedir a nossos ministros da Fazenda que criem regras para que não dependamos tanto do dólar, que está cada vez mais escasso e mais condenado", disse o presidente brasileiro na entrevista coletiva concedida junto a Uribe. O colombiano terminou em Brasília sua visita iniciada, nesta segunda-feira, em São Paulo.

Segundo Lula, "se na União das Nações Sul-americanas (Unasul) conseguirmos regras para negociar em moedas próprias, teremos menos problemas de crédito". Além disso, as operações comerciais serão favorecidas por preços melhores devido à economia com custos financeiros e comissões.

Uribe disse ter prestado atenção e tomado nota da sugestão. Além disso, declarou que "seria prudente" que os ministérios da Fazenda de Brasil e Colômbia "encontrem mecanismos" para fazer operações em moedas próprias.

Também propôs que, caso as partes cheguem a uma fórmula apropriada, a taxa de câmbio seja monitorada "a fim de que o risco de sobressaltos não faça a confiança no experimento ser perdida".

De acordo com o presidente brasileiro, tomar essa medida seria fazer na América do Sul "o que em outros tempos o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial (BM) não aceitavam, o que os Estados Unidos não viam com bons olhos ou o que a União Europeia (UE) não entendia", que é buscar "caminhos próprios", sem "tutelas", em casos de crise.

"É o momento de pensar politicamente e não economicamente", acrescentou o governante brasileiro, segundo quem a América Latina deve deixar de "depender do que dependeu durante todo o século 20, que era a decisão dos países mais ricos", aos quais atribuiu a atual crise financeira global.

Mais comedido, Uribe concordou com Lula e condenou aqueles que nos últimos anos "trocaram a produção pelo investimento nos mercados especulativos", e afirmou que "o capital deve ser um fator de criação de riqueza social, e não de especulação".

No entanto, disse que a atual crise "não anula a economia privada", que deve ser fortalecida por medida enérgicas do Estado em favor dos investimentos e da produção.

Uribe também citou o Brasil como exemplo de conduta no combate à crise e afirmou que tudo o que acontece neste país representa uma "esperança" para o resto da América Latina.

Segundo o presidente colombiano, o sucesso do governo Lula frente às turbulências "contribuirá" para a manutenção dos investimentos brasileiros em seu país, que atualmente são calculados em US$ 1,5 bilhão.

Para Uribe, a decisão de Lula de aumentar a participação do Estado na economia e ao mesmo tempo favorecer a iniciativa privada, sem se descuidar dos investimentos na área social, deve ser imitada.

"É o equilíbrio que dista do ódio social e do capitalismo selvagem", declarou o presidente colombiano.

A visita também serviu para que Uribe agradecesse Lula pessoalmente pelo "discreto" apoio do Brasil na recente operação que permitiu a libertação de seis reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

"(Lula) Ajudou-nos a fazer o mundo compreender que a paz não pode ser obtida sem segurança", e que isso "não é um axioma da direita e uma negação da esquerda, mas uma condição da democracia", disse o chefe de Estado colombiano.

Após a entrevista coletiva, Lula ofereceu um almoço em honra ao presidente colombiano e à delegação que o acompanha no Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.

Depois, Uribe visitou o Congresso e o Supremo Tribunal, da onde seguiria de volta para Bogotá.

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