Lula pede ao papa que fale com fiéis sobre a crise

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao papa Bento 16 nesta quinta-feira que fale publicamente sobre a crise financeira internacional e dê conselhos sobre como enfrentar seus efeitos. Falamos da crise e pedi que, em seus pronunciamentos, fale da crise, porque se todo domingo ele der um conselhozinho, quem sabe a gente não encontra mais facilidade para resolver a crise econômica, disse Lula durante uma coletiva a jornalistas brasileiros, após o encontro.

BBC Brasil |

Papa Bento 16 recebe Lula no Vaticano


Lula se reuniu com o pontífice no Vaticano em uma audiência privada de 24 minutos que teve a presença apenas de um intérprete.

Os ministros Nelson Jobim (Defesa), Dilma Rousseff (Casa Civil), Celso Amorim (Relações Exteriores) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), além das embaixadoras Vera Machado e Edileusa Fontenele e da primeira-dama, Marisa Letícia, acompanharam o presidente até a sala onde Lula se encontrou com o papa.

Todas as mulheres vestiam preto e cobriam a cabeça com um véu da mesma cor. Marisa Letícia usava um colar dourado com uma medalha de Nossa Senhora Aparecida.

Esta é a primeira audiência privada do presidente com um papa no Vaticano, mas não foi a primeira vez que se reuniu com o atual pontífice. Em maio de 2007, Lula recebeu Bento 16 durante sua visita ao Brasil.

"Disse a ele que a minha maior preocupação é que esta crise não resulte no empobrecimento dos mais pobres", afirmou o presidente. "Tem muitos países ricos que aportam recursos para ajudar países pobres e eles não podem parar" porque dessa forma, acrescentou Lula, esses países vão se "sufocar".

O presidente contou que também disse ao papa como são "injustas" as novas regras de imigração que estão sendo aprovadas pela União Européia. O papa teria concordado, disse Lula, que acrescentou que não poderia relatar o que o pontífice respondeu.

"Citei para o papa como o Brasil é um exemplo sobre como se deve tratar um imigrante", afirmou o presidente. "Nós estamos recebendo imigrantes há muitos séculos e nós vivemos bem."

"Lá, nós temos alemães, italianos, japoneses, portugueses, árabes, judeus, bolivianos, uruguaios, argentinos e aprendemos a viver em harmonia. Então, o que nós queremos é que o mundo trate os imigrantes como parceiros", acrescentou Lula.

"Se não querem que africanos venham para cá, que os latino-americanos não vão para os Estados Unidos, a melhor forma é ajudar esses países a se desenvolver."

Troca de presentes

Lula disse ter presenteado o papa com a escultura em barro de uma família de retirantes, feita por um artista pernambucano. De Bento 16, o presidente ganhou uma caneta.

Ele ainda disse ter ficado "surpreendido" porque o papa está muito bem informado sobre o Brasil.

"Antes de ir ao Brasil, o papa passava a imagem de um homem sisudo, de poucos amigos", afirmou Lula. "Na verdade, quando ele chegou, chegou um homem afável, acho que ele conquistou o Brasil e que o Brasil o conquistou."

Ainda segundo o presidente, o Brasil sempre trabalhou e sempre vai trabalhar para ter uma boa relação com todos os papas e com o Estado do Vaticano porque a "relação da Igreja com o Brasil é indissociável".

Acordo

Depois do encontro, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o secretário do Vaticano para Relações com outros Estados, monsenhor Dominique Mamberti, assinaram o Acordo Brasil-Santa Sé.

O documento consolida as relações entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro, mas, na prática, não altera em nada o que já está em vigor.

As 17 cláusulas do acordo já constam dos instrumentos jurídicos brasileiros, como a Constituição, os Códigos Civil e Penal, assim como de tratados internacionais.

O documento aborda questões como o ensino religioso facultativo nas escolas públicas e reafirma a imunidade tributária para pessoas jurídicas eclesiásticas, como igrejas e arquidioceses.

O acordo havia sido apresentado pela Santa Sé em outubro de 2006 e, desde então, passou por ajustes. Entre as emendas está a que assegura o ensino facultativo nas escolas públicas não apenas da religião católica, como também de outras crenças.

Segundo a embaixadora brasileira junto ao Vaticano, Vera Machado, o ensino facultativo de todas as religiões já está previsto no artigo 210 da Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases do Ministério da Educação. Portanto, não altera o que já está em vigor.

O cardeal brasileiro d. Cláudio Hummes, que esteve presente na assinatura do ato, disse que o acordo reafirma o caráter laico e de pluralidade religiosa da sociedade brasileira e que em nenhum momento a Igreja procurou obter "privilégios".

"No fundo, consagra apenas aquilo que é a laicidade do Estado e a liberdade religiosa", afirmou o cardeal.

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