O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu às autoridades italianas que respeitem a decisão do Brasil de conceder asilo ao ex-ativista de esquerda italiano Cesare Battisti.

"A decisão brasileira é questão brasileira, soberana do Estado brasileiro. E tomamos decisão de que essa pessoa (Battisti) seja asilado no Brasil", disse o presidente nesta quinta-feira, na sede do Sexto Distrito Naval, na localidade de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde ele participou de uma cerimônia com o colega boliviano Evo Morales.

Segundo Lula, o Brasil é um país "generoso" e que respeita o entendimento do ministro da Justiça (Tarso Genro) de que "ele fique no Brasil".

Se a soberania de cada país for respeitada, as relações (com a Itália) não serão afetadas e "ficarão cada vez melhores", acrescentou o presidente.

Quando perguntado se não temia uma reação contrária não só da Itália, mas do G-8, ele respondeu: "Nem do G-8, do G-9 ou do G-10. Acho que os italianos podem até não concordar com a decisão do Brasil, mas devem respeitá-la."

Lula disse que Battisti é acusado de um crime que ocorreu em 1978. "Ou seja, há mais de 30 anos. E o cidadão que o acusou não existe mais para confirmar o que falou".

Extradição

O governo italiano prometeu recorrer ao Supremo Tribunal Federal brasileiro para conseguir a extradição do ex-ativista.

Em entrevista à rádio italiana Anch'io, o ministro da Justiça da Itália, Angelino Alfano, disse que espera que o governo brasileiro reveja a decisão de conceder a Battisti o status de refugiado.

"Não nos acomodaremos e iremos usar de todos os meios judiciais. Faremos tudo o que for possível", disse o ministro. "Pretendemos propor um recurso junto ao Supremo Tribunal Federal do Brasil".

Mas a retaliação italiana pode não ficar apenas no campo judicial. A decisão brasileira também provocou uma forte reação política.

A Itália vai ser a sede neste ano do encontro do grupo de países mais industrializados do mundo, o G8, e usa a possível participação brasileira como arma de barganha.

"Vamos ainda fazer valer o fato político de que os países como o Brasil, que pretendem contribuir para a democracia mundial com a participação no G8, não podem pensar que a violação do que foi decidido pela Justiça de outros países irá aplainar seu caminho (para participar da reunião)", disse Alfano. "As democracias mundiais devem colaborar também com isso."

Battisti é ex-integrante de um grupo de extrema-esquerda e foi condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos. Em 2007, ele foi capturado no Rio de Janeiro. Hoje, está detido em um presídio no Distrito Federal e aguarda libertação após a decisão do Ministério da Justiça.

Obama

Na entrevista concedida em Ladário, Lula disse ainda que espera que a chegada do presidente eleito dos Estados Unidos, Barak Obama, ao poder - sua posse será no próximo dia 20 - mude a relação do país com a América Latina.

"Espero que Obama tenha outro olhar sobre a América do Sul, a América Central e a África. (...). Porque antes eles viam aqui comunistas, depois terroristas e traficantes. E não há nada melhor para combater traficante do que gerar empregos em cada país".

Lula disse que espera que Obama admire que um "índio", como afirmou, e um "metalúrgico" governam Bolívia e Brasil.

Quando perguntado por um jornalista boliviano se faria a "intermediação" entre Obama e Evo, Lula respondeu: "Não acho que Morales e (Hugo) Chávez precisam disso. Eles são presidentes, como eu sou presidente. Mas não acho que Morales e Chávez têm que esperar ligação do Obama. Mas ligar para ele, através de seus embaixadores, quando entendam que seja o momento".

Recentemente, no entanto, Morales e Chávez romperam relações diplomáticas com o governo americano. Ao comentar a chegada de Obama à Casa Branca, Morales afirmou: "Que seja uma relação sem condições, sem chantagens políticas (...) E esperamos melhor relação diplomática com Estados Unidos."

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