Brasília, 12 ago (EFE).- O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o líder deposto de Honduras, Manuel Zelaya, concordaram hoje que os Estados Unidos devem assumir uma atitude mais enérgica para convencer os golpistas de que eles não têm futuro.

Zelaya foi recebido hoje por Lula para analisar a situação em Honduras, que já dura 44 dias, depois do golpe de Estado que expulsou o líder de seu país e o substituiu no poder por Roberto Micheletti, ex-líder do Legislativo.

Após o encontro, que durou cerca de duas horas, Zelaya insistiu que a única forma de restabelecer a paz e a ordem democrática em Honduras é através de seu retorno à Presidência, o que disse estar convencido que ocorrerá "mais cedo ou mais tarde".

Reiterou, no entanto, que pela grande influência que tem na região, é necessário que os EUA "sejam mais firmes" e adotem uma pressão "mais enérgica" sobre o novo Governo.

Zelaya disse estar "convencido de que o presidente (Barack) Obama não quer brincar com seu prestígio" e exercerá essa pressão por vias diferentes, mas expressou seu desejo de que os EUA não cheguem ao extremo de adotar sanções econômicas.

O líder deposto ressaltou que mais de "70% das atividades econômicas, culturais, militares e políticas" de Honduras estão vinculadas diretamente aos EUA e, por isso, para o Governo de Micheletti, não será fácil resistir.

O presidente deposto avaliou o apoio dado por Obama desde que foi deposto do poder, no dia 28 de junho, lembrou que "patrocinou" a condenação ao golpe pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e disse ter certeza de que "o presidente dos EUA não tem dupla moral".

No entanto, apesar de ter afirmado que "Obama não teve nada a ver com o golpe", disse que "não se pode dizer o mesmo de alguns membros" dos serviços de inteligência americanos.

Zelaya afirmou que se retornar ao poder "pacificamente", as eleições previstas para novembro "serão realizadas" e que ele não poderá ser candidato à Presidência, pois "não há reeleição em Honduras".

Mas também garantiu que "o povo hondurenho não participará de eleições ilegítimas", se forem convocadas pelo Governo de Micheletti.

Nesse sentido, disse que recebeu o apoio de Lula para propor à OEA e às Nações Unidas que adotem como norma "o não reconhecimento das eleições convocadas por um Estado ilegal", não só para o caso de Honduras, mas para toda situação similar que possa se instalar no futuro, em qualquer país.

Já o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comentou que Lula apoiou a proposta e que também está disposto a conversar com Obama sobre as pressões que os EUA poderiam exercer.

"É preciso que os golpistas entendam que não têm futuro e quem pode dizer isso com todas as letras são os EUA, que têm uma influência direta", declarou Amorim.

O ministro disse que se preocupa com a demora para uma solução do conflito, pois "à medida que em tempo passa, a capacidade que a volta do presidente Zelaya legitime as eleições (previstas para novembro) vai se enfraquecendo e isso é ruim para a democracia".

Por isso, insistiu que "é preciso que (Zelaya) volte e que volte rápido" e reiterou que, para que isso, será determinante o papel "da OEA, o poder do direito, e dos EUA, que é o poder efetivo".

Após a reunião com Lula, Zelaya foi para a sede do Congresso, onde foi recebido pelo presidente do Senado, José Sarney, e membros da Comissão de Relações Exteriores que expressaram a "solidariedade" da Casa.

Zelaya informou que permanecerá em Brasília até amanhã, de onde seguirá de manhã para Santiago do Chile, para se reunir com a presidente Michelle Bachelet. EFE ed/pd

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.