Eduardo Davis. Brasília, 26 mar (EFE).- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, afirmaram hoje que impulsionar o comércio é tão importante quanto ajudar os bancos a superar problemas financeiros, e uma forma de minimizar o impacto da crise na economia global.

Brown foi mais específico e antecipou que, na Cúpula do Grupo dos Vinte (G20, que reúne os países mais ricos e principais emergentes), que será realizada em Londres em 2 de abril, proporá a criação de um fundo de US$ 100 bilhões "para assegurar que as empresas possam exportar".

As contribuições de cada país a esse fundo global deverão ser discutidas, mas o premiê britânico disse confiar em que o valor proposto será aceito pelos países do grupo, pois é o "mínimo necessário" para impedir maiores efeitos sobre o comércio mundial.

Lula respaldou a proposta, e, ao mesmo tempo, criticou o programa anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para a compra de ativos sem liquidez dos bancos.

"Se esse US$ 1 trilhão (do programa anunciado por Obama) que será usado para comprar ativos podres fosse para o comércio, seria muito melhor", afirmou Lula em entrevista coletiva junto a Brown, a quem recebeu hoje em Brasília.

O presidente admitiu que não estudou detalhadamente o plano de Obama, mas disse que "o dinheiro que se dirige ao sistema financeiro não ajuda à recuperação dos fluxos de comércio", e acrescentou que "o importante agora é recuperar o crédito" para favorecer a troca comercial.

Mais implacável, ressaltou que "nenhuma das medidas tomadas até este momento ajudam a recuperar o crédito", que, em sua opinião, é o grande desafio dos líderes mundiais.

Brown coincidiu em que a queda do comércio é o "mais recente" efeito da crise global, e citou relatórios que advertem de que as exportações mundiais vão cair pela primeira vez em 30 anos, e destacou que, por isso, o assunto não poderá ser ignorado na Cúpula do G20.

"É preciso dar um passo à frente e adotar medidas que revertam a falta de crédito que secou o comércio mundial", afirmou o premiê britânico.

Lula e Brown também coincidiram em linhas gerais em que é urgente reparar o sistema financeiro, estabelecer controles rígidos aos bancos internacionais, acabar com os paraísos fiscais, criar uma nova ordem econômica e reformar os organismos multinacionais.

Para o presidente brasileiro, o mundo está diante de um momento "de incerteza", que exige "mais decisões políticas" que econômicas, pois há a necessidade de "recuperar a confiança e credibilidade dos governantes".

O governante afirmou que a Cúpula do G20 "não poderá ser uma reunião a mais, para acertar quando será a próxima reunião", pois, se for assim, "se enviaria um péssimo sinal" ao mundo.

"Não temos direito de deixar que a crise se prolongue", insistiu Lula, que também previu que nem tudo será consenso em Londres.

A Cúpula do G20, de acordo com Lula, "terá que ter calor e debate", porque, apesar de alguns consensos gerais, ainda restam "temas polêmicos", entre os quais citou o protecionismo, a recuperação do crédito e a retomada da Rodada de Desenvolvimento de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Esse último assunto, para o presidente brasileiro, é "urgente" para ajudar a restabelecer os fluxos comerciais.

Brown evitou identificar os responsáveis pela crise, mas Lula reiterou que a situação atual não foi criada pelos países pobres, que "não podem nem devem" ser os mais prejudicados por suas consequências "outra vez", afirmou.

Lula ressaltou que "esta crise foi causada pelo comportamento irracional de gente branca e de olhos azuis", e disse que, até agora, não conhece "nenhum banqueiro negro ou índio".

Em outra mensagem aos países desenvolvidos, o presidente também declarou que "resolver a crise é resolver o problema da imigração" e a situação dos que buscam em outras nações uma saída aos problemas financeiros aguçados pelos problemas econômicos globais.

Após a reunião com Lula, Brown viajou para São Paulo, de onde, nesta sexta-feira, irá a Viña del Mar, no Chile, para assistir à reunião de Líderes Progressistas, na qual encontrará novamente o presidente brasileiro. EFE ed/db

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.