Lula descarta ajudar reféns das Farc sem aval da Colômbia

São Paulo, 5 dez (EFE) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu hoje sua palavra para o trabalho em prol da libertação dos seqüestrados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas condicionou a participação do Brasil a um aval do Governo colombiano. Após um encontro em São Paulo com a ex-refém colombiana Ingrid Betancourt, Lula afirmou que o Brasil trabalhará com o compromisso de participar das negociações para a libertação dos seqüestrados, mas esclareceu que qualquer gestão desse tipo deverá contar com o aval do Governo da Colômbia. Lula expressou que agora é trabalhar para libertar os outros reféns, mas o Brasil não move um dedo sem que haja um acordo com o Governo institucional da Colômbia. O Brasil não dá palpites, só oferece uma contribuição.

EFE |

"As Farc deveriam se informar de que não se faz política seqüestrando inocentes, eles têm que entender que a grande oportunidade é crer na democracia. Não se ganham eleições seqüestrando pessoas", acrescentou o líder.

O governante fez um apelo ao grupo armado para ver o exemplo dos países latino-americanos, onde a esquerda "apostou no jogo político para ocupar cargos no Governo".

"A grande oportunidade que as Farc têm de um dia governar a Colômbia é crer na democracia, crer na militância política e fazer o jogo democrático como fizemos aqui", acrescentou Lula, que citou as mudanças democráticas ocorridas em países como a Venezuela, Equador, Bolívia e Paraguai.

A liberdade de Betancourt e de outros 14 reféns, entre eles três americanos, foi "uma conquista da humanidade", indicou Lula.

A ex-candidata presidencial afirmou que 2008 "foi um ano de imensa humilhação para as Farc", mas, após relatar as baixas e golpes recebidos pelo grupo armado nos últimos meses, considerou que a "Operação Xeque" do Exército colombiano, que permitiu a libertação não pode repetir.

Sobre a ação, afirmou que foi "extraordinária".

"Nos seis anos, nove meses e quatro dias em que estive seqüestrada, as Farc nunca consideraram me libertar, nunca teriam me libertado, mas não pode voltar a se repetir, porque se baseou no engano ao fazer as Farc acreditarem que os soldados eram seus amigos", disse.

"Um cachorro não é enganado duas vezes", ressaltou a política, que também tem nacionalidade francesa.

A ex-candidata presidencial completa uma viagem por vários países da América Latina para agradecer a ajuda dos Governos da região a favor de sua libertação, após seis anos em poder do grupo guerrilheiro.

"Devo minha libertação aos presidentes da América Latina. Por isso, tenho uma esperança para ir à Venezuela e agradecer também ao presidente (Hugo) Chávez pela libertação dos meus companheiros", apontou.

Em sua passagem pelo Brasil, Betancourt agradeceu ao povo brasileiro por suas mensagens de solidariedade durante o período em que ficou em cativeiro e especialmente ao presidente Lula por sua defesa no assunto da libertação dos seqüestrados na Colômbia.

Quanto à posição do Brasil de não qualificar as Farc como grupo terrorista, Betancourt disse: "Não vou entrar em discussões semânticas, mas eles atuam como terroristas, mesmo que não gostem do termo".

A franco-colombiana descartou, por outro lado, uma possível postulação como candidata presidencial, papel que tinha em 2002 no momento em que foi seqüestrada.

Ela antecipou que em 2009 espera se isolar com sua família, "pelo menos por uns seis meses" para escrever "um testemunho" do que viveu em cativeiro.

Sobre o atual presidente colombiano, Álvaro Uribe, Betancourt agradeceu a ele por sua libertação e disse que concorda com alguns pontos de sua política de combate às Farc, mas reclamou da falta de mais ações no campo social.

"Estou de acordo que contra as Farc tem que haver uma ação militar, mas deve haver também uma resposta social com oportunidades de trabalho para a juventude que está nas zonas de combate", concluiu. EFE wgm/rr/db

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