O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta segunda-feira, durante um encontro com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, o direito de Teerã de desenvolver, com fins pacíficos, o seu programa de desenvolvimento de urânio. O que temos defendido há muito tempo é que o Irã tenha o direito de enriquecer urânio para produção de energia com fins pacíficos, como o Brasil está desenvolvendo, disse Lula em Brasília.

Para vários países, entre eles os Estados Unidos, o programa nuclear do Irã tem o objetivo de produzir armamentos. O governo iraniano, no entanto, nega que pretenda construir bombas de destruição em massa.

Durante o encontro, Lula ainda afirmou que defende para o Irã o mesmo tratamento que o Brasil quer para si no campo da energia atômica.

"O Brasil tem um modelo de desenvolvimento de energia nuclear reconhecido pela Agência Internacional de Energia Atômica e, ao mesmo tempo, reconhecemos a polêmica que existe sobre o mesmo desenvolvimento acontecido no Irã", disse o presidente.

"O que defendemos para o Brasil não tem porque não defendermos para os outros."
Pretextos
Mahmoud Ahmadinejad, por sua vez, afirmou durante a coletiva na sede do Itamaraty que, desde a Revolução Islâmica de 1979, os "inimigos" do Irã na comunidade internacional buscam pretextos para atacar o país.

Segundo ele, a questão nuclear é apenas mais uma de uma longa série de ações para prejudicar Teerã, que teria incluído no passado, por exemplo, o incentivo aos oito anos de guerra do Irã contra o Iraque de Saddam Hussein.

"Nunca deixamos (sem resposta) nenhuma pergunta da Agência Internacional de Energia Atômica. Entregamos documentos que têm todos os detalhes de nosso programa", disse Ahmadinejad.

Durante a cerimônia da tarde desta segunda-feira, os governos do Brasil e do Irã assinaram memorandos e convênios nas áreas de cultura, energia, ciência e tecnologia, agricultura e comércio exterior, embora sem nenhum acordo comercial concreto.

Os dois lados também assinaram um acordo dispensando a necessidade de vistos aos portadores de passaportes diplomáticos viajando entre os dois países.

Além disso, também firmaram um acordo de cooperação a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Câmara de Comércio e Indústria do Irã.

Protestos
Mahmoud Ahmadinejad desembarcou nesta segunda-feira no Brasil para uma visita de 24 horas cercada de polêmica.

No domingo, antes mesmo da chegada de Ahmadinejad ao país, entidades ligadas à comunidade judaica, grupos religiosos, de defesa dos direitos humanos, de homossexuais e outras organizações realizaram protestos contra a visita do líder iraniano.

Nesta segunda-feira, poucos manifestantes foram exibir suas posições em frente ao Ministério das Relações Exteriores, em Brasília.

Algumas dezenas de pessoas carregando bandeiras de Israel e cartazes dos movimentos gay e feminista gritavam palavras de ordem contra o presidente iraniano. Um grupo menor carregava bandeiras palestinas e saudava os presidentes Lula e Ahmadinejad.

Críticas
Os críticos da visita de Ahmadinejad questionam o fato de o Brasil receber um líder tão polêmico com honras de chefe de Estado. Esses críticos temem que o gesto possa deixar a impressão de que o Brasil concorda com as posições do presidente iraniano - que defende o fim do Estado de Israel, nega o Holocausto e resiste à pressão internacional para que o Irã interrompa seu programa de enriquecimento de urânio.

O governo brasileiro, porém, afirma que a política externa brasileira tem uma tradição de não intervir em assuntos internos de outros países, que isolar o Irã seria menos produtivo e que o melhor caminho é o diálogo.

Reagindo às criticas, o presidente Lula disse no domingo que estava honrado em receber no Brasil a terceira figura importante do Oriente Médio em menos de 15 dias: nas últimas duas semanas já estiveram no país o presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.

"Com todos queremos falar de paz", disse o presidente.

Críticos, no entanto, afirmam que Ahmadinejad está apenas usando o Brasil - e a América Latina - para tentar furar o bloqueio internacional que é imposto ao país.

Pouco antes de se encontrar com Ahmadinejad no saguão do Itamaraty, Lula confirmou que o Brasil pretende promover um jogo de futebol entre a seleção brasileira e um combinado de israelenses e palestinos.

"Posso até jogar de ponta de lança", brincou.

Agenda
Ainda nesta segunda-feira, Ahmadinejad participa do Fórum Empresarial Brasil-Irã, que acontece em Brasília com a presença de cerca de 200 empresários dos dois países.

O líder iraniano participa ainda de um encontro com estudantes no Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB), que periodicamente promove seminários para os alunos com a participação de figuras internacionais importantes.

Em geral, os alunos têm grande liberdade para fazer perguntas aos convidados, mas ainda não está claro como serão os procedimentos no caso deste convidado controverso.

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