Eduardo Davis Brasília, 16 abr (EFE).- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quarta-feira a bioenergia e culpou os países mais ricos pela crise de alimentos, que, segundo ele, distorcem o comércio mundial e impedem o desenvolvimento dos mais pobres.

"Fico assustado quando querem relacionar o aumento dos alimentos com os biocombustíveis, quando não falam do impacto da alta do petróleo no preço dos alimentos e quando não comentam sobre o impacto dos subsídios agrícolas", declarou Lula.

"Também não falam dos adubos, vendidos cada vez mais caros pelas multinacionais dos países mais ricos", afirmou Lula ao inaugurar a fase ministerial da conferência regional da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

Segundo Lula, nas nações mais desenvolvidas existem interesses econômicos e políticos que tentam criar uma matriz de opinião contra os biocombustíveis e evitar as responsabilidades que os países mais ricos têm na atual crise alimentícia.

"Os países pobres não podem continuar assumindo as culpas dos mais ricos, que aprovam instrumentos como o Protocolo de Kioto e deixam a responsabilidade de cuidar do ambiente para os mais pobres", aos quais, para evitar o desmatamento, "oferecem créditos de carbono que depois não pagam", disse Lula.

Segundo o presidente, "os países pobres não são os causadores dos altíssimos preços do petróleo" e nem "distorcem" o comércio mundial, mas são as "vítimas" da crise alimentícia.

Lula aproveitou a abertura da conferência da FAO para responder ao relator da ONU, Jean Ziegler, que sustentou que o uso de biocombustíveis é um "crime contra a humanidade", por sua suposta influência nos preços dos alimentos.

O "verdadeiro crime contra a humanidade é relegar os países pobres à miséria e fechar-lhes a porta para o desenvolvimento", afirmou Lula.

O presidente também negou que a bioenergia seja "o vilão dessa história" e assegurou que "é muito fácil ficar sentado em uma poltrona na Suíça e opinar sobre o que acontece no Brasil ou na África", onde, segundo sua opinião, produtos como o etanol podem "ser uma saída para a miséria".

Para Lula, a crise obedece aos "caríssimos preços" do petróleo - que causam impactos no transporte e em toda a cadeia produtiva -, às colheitas afetadas pela mudança climática, à especulação nos mercados de matérias-primas e ao fato de que "hoje há mais bocas para alimentar, porque os pobres começaram a comer".

Considerou "lamentável" que os países ricos "só reajam diante da emergência e alertem apenas agora sobre a fome, quando há décadas bilhões de pessoas dormem sem comer".

Segundo Lula, a solução é "produzir mais e melhor", e também afirma que os países ricos devem ceder na "queda-de-braço" que há anos se mantém na Rodada Doha.

"A Europa e os Estados Unidos têm que ceder e quem tem que ganhar são os pobres", declarou Lula.

Em seu discurso, o presidente pediu o fim do "protecionismo" agrícola e a adoção da segurança alimentar "como política de Estado global", porque "as estruturas atuais" do comércio não estão feitas para incluir, mas para "relegar os mais pobres à miséria".

O senegalês Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, também falou na conferência, e concordou com Lula que a crise alimentícia "não possui um único fator" e afirmou que o possível impacto dos biocombustíveis deve ser debatido "seriamente".

Diouf lembrou que, com esse fim, a FAO convocou uma conferência especial para o próximo mês de junho em Roma, e disse que todos "os líderes mundiais estão obrigados a assisti-la", pois considerou que é necessária uma "resposta política" para impedir a "propagação dos conflitos por causa da fome". EFE ed/mac/fb

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.