O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca nesta segunda-feira em Pequim para sua segunda visita oficial à China em cinco anos, com o desafio de pôr em prática uma parceria estratégica entre os dois países que vá além da relação comercial. Um dos principais pontos da agenda de Lula durante a visita de três dias será a assinatura de um plano qüinqüenal de ação conjunta para o período de 2010 e 2014.

Esse plano deverá estabelecer metas para o crescimento do comércio bilateral, dos investimentos e de outros pontos da cooperação entre os países.

A China é considerada "parceira estratégica" do Brasil desde 1993, quando foi assinado um acordo entre os países durante o governo Itamar Franco.

Desde então, a importância comercial do país asiático para o Brasil vem crescendo significativamente, a ponto de a China ter se tornado em abril pela primeira vez na história o maior parceiro comercial do Brasil, desbancando 80 anos de liderança absoluta dos Estados Unidos.

Balança comercial
Enquanto as exportações totais do Brasil caíram 16,5% nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, as vendas à China tiveram crescimento de 66,7% e estão ajudando o Brasil a manter o saldo positivo na balança comercial.

As importações de produtos chineses caíram 16,2% na comparação entre os dois períodos, mas a queda foi menor do que a queda nas importações totais, de 22,8%.

"A relação comercial com a China é muito importante para o Brasil e vai continuar crescendo, mesmo em um ano em que o comércio mundial deverá cair 9%", observa o embaixador brasileiro em Pequim, Clodoaldo Hugueney.

Mas em outros pontos da agenda bilateral os avanços foram mais limitados.

No último encontro bilateral, em 2004, o Brasil anunciou que concederia ao país asiático o status de economia de mercado, enquanto os chineses mostraram "disposição" em intensificar seus investimentos no país.

Nenhum dos dois compromissos, no entanto, foi levado adiante. O Brasil ainda não formalizou o status concedido à China e tampouco os investimentos prometidos pelo país asiático saíram do papel.

"A relação entre China e Brasil tem potencial para avançar mais. Os grandes investimentos, por exemplo, ainda não aconteceram", diz um diplomata de Brasília.

De acordo com dados do Banco Central, em 2007 a China investiu US$ 24 milhões no Brasil. Já os investimentos de empresas brasileiras no mercado chinês foram maiores: no mesmo período somaram US$ 83 milhões.

Investimento
Um dos grandes projetos de investimento chinês no Brasil está praticamente congelado. O plano da Baosteel para a construção de uma nova planta em parceria com a Vale, avaliada em US$ 5 bilhões, ainda não se concretizou.

A justificativa, segundo as empresas, estaria na baixa demanda em função da crise financeira. Mas o presidente da Câmara Brasil-China, Charles Tang, culpa a "burocracia ambiental no país".

"Faz oito anos que a Baosteel tenta implementar esse projeto no Brasil. E sempre existe um impedimento ambiental", diz Tang.

A crítica às dificuldades burocráticas é compartilhada pelo advogado e especialista em comércio internacional, Durval Noronha.

"É complicado falar em parceria estratégica quando um visto na embaixada brasileira em Pequim leva 90 dias para ficar pronto", diz Noronha, que há dez anos atua na China.

Na área comercial, a principal preocupação do Brasil é com a diversificação da pauta de exportações para a China.

Hoje as matérias primas, como soja e minério de ferro, concentram mais de três quartos das vendas brasileiras, enquanto as importações são basicamente de produtos manufaturados, com maior valor agregado.

Segundo o ministro do Desenvolvimento do Brasil, Miguel Jorge, o governo brasileiro também espera aproveitar a visita para anunciar o fechamento de um acordo para a compra de 25 aviões da Embraer pelo governo chinês.

Conselho de Segurança
Outro possível desdobramento da visita no campo comercial poderá ser a abertura do mercado chinês para a carne brasileira. O governo brasileiro negocia para que a China suspenda barreiras que hoje impedem a venda do produto brasileiro no país.

No campo político, a visita de Lula deverá servir para reafirmar as posições conjuntas dos dois países, como a demanda por uma maior participação dos países em desenvolvimento nos organismos internacionais.

Os dois países também defenderam, durante a recente reunião de cúpula do G20, no mês passado em Londres, uma maior regulamentação do sistema financeiro internacional e a retomada das negociações para a conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio.

China e Brasil concordam ainda sobre a necessidade de reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas o governo brasileiro quer o apoio explícito da China em sua batalha por um assento permanente na instituição.

A possibilidade de um apoio explícito da China à entrada do Brasil no conselho, porém, é remota, já que significaria também endossar a entrada do Japão, seu rival regional. O Japão é aliado do Brasil na postulação por novas cadeiras permanentes no Conselho de Segurança, ao lado de Alemanha e Índia.

Segundo um diplomata ouvido pela BBC Brasil, o Itamaraty está "ciente" de que o assunto é "delicado". "Mas de alguma forma deverá ser abordado durante a visita a Pequim", diz.

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