O ex-bispo católico Fernando Lugo, considerado um dos expoentes da Teologia da Libertação no Paraguai, foi eleito presidente com a promessa de reconciliar o país e acabar com seis décadas de poder do Partido Colorado.

Lugo, de 56 anos, anunciou há dois anos que deixava a vida religiosa para tentar tirar o Partido Colorado do governo, por meio de uma posição de liderança em uma oposição unida.

Lugo conseguiu unir um amplo espectro ideológico, com o centenário Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), de centro-direita, como sua principal base eleitoral, tendo a seu lado ainda cerca de 30 grupos de esquerda e organizações e movimentos sociais de massa.

Para vários setores, incluindo o dos grandes proprietários de terra, Lugo é um " perigoso esquerdista ". Muitos não esquecem de seu trabalho em favor dos mais pobres nos 11 anos em que foi bispo da diocese de San Pedro, uma das áreas rurais mais conflituosas do Paraguai.

No entanto, Lugo insistiu em afirmar durante sua campanha que governará o país "com a ajuda de todos e para todos" incluindo os "colorados", exceto com "mafiosos", como costuma definir grupos que usufruíram do poder por mais de 61 anos, e que são responsabilizados pelo ex-bispo pela pobreza e os males que assolam o Paraguai.


Fernando Lugo comemora vitória em seu escritório político / Reuters

Biografia

Lugo nasceu em 30 de maio de 1951, em San Solano, no distrito de San Pedro del Paraná, departamento (Estado) de Itapúa, 400 quilômetros ao sul de Assunção.

Filho de Guillermo Lugo e Maximina Mendez Fleitas, teve parte de sua família sofrendo com a repressão durante a ditadura de Alfredo Stroessner, que durou de 1954 a 89.

Em março de 1970, ingressou no Noviciado dos Missionários do Verbo Divino. Em setembro de 1972, professou seus votos nessa congregação missionária, em Assunção. Três anos depois, fez votos perpétuos.

Paralelamente, formou-se em Ciência Religiosa na Universidad Católica Nuestra Señora de la Asunción, na capital paraguaia.

Ordenou-se sacerdote em 15 de agosto de 1977, e, posteriormente, seguiu para o Equador para trabalhar como missionário na diocese da província de Bolívar, onde foi professor e pároco das localidades de Guaranda e Echeandía, onde começou a ter contato e a se identificar com a Teologia da Libertação.

No Equador, trabalhou com o monsenhor Leonidas Proaño, um dos expoentes dessa corrente religiosa, que tem ainda como um de seus líderes o brasileiro Leonardo Boff. Proaño era conhecido na região como "o bispo dos pobres".

Em meados de 1982 retornou ao Paraguai e, no ano seguinte, viajou para Roma para realizar estudos de Espiritualidade e Sociologia, graduando-se em Doutrina Social da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Foi membro da Comissão Doutrinal da Conferência Episcopal Paraguaia e da equipe de Reflexão Teológica do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam).

Acabou ordenado bispo em 1994. No final do mesmo ano, passou a ser bispo emérito, e em menos de um ano surgiu como uma figura política por suas críticas ao governo do presidente Nicanor Duarte.

Em março de 2006, Lugo liderou o movimento Resistência Cidadã, que reunia os principais partidos políticos da oposição, cinco centrais sindicais e mais de 100 associações e movimentos civis.

Lugo tornou-se o principal orador de uma manifestação convocada pela Resistência Cidadã que reuniu mais de 30 mil pessoas em frente à sede do Congresso, em protesto contra o Governo.

No final de 2007, Lugo oficializou sua candidatura presidencial para as eleições deste, encabeçando a lista da Aliança Patriótica para a Mudança (APC). O esquerdista venceu Blanca Avelar, candidata governista, por quase 10 pontos de vantagem.


Partidários de Lugo comemoram resultados nas ruas / Reuters

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