Lugo toma posse com discurso contra a pobreza

Por César Illiano e Daniela Desantis ASSUNÇÃO (Reuters) - O ex-bispo Fernando Lugo tomou posse na sexta-feira como presidente do Paraguai, prometendo pôr em prática seus ideais socialistas para combater a pobreza e a corrupção.

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A cerimônia marcou o fim de 61 anos de hegemonia política do conservador Partido Colorado. 'Hoje termina um Paraguai exclusivo [dos ricos], um Paraguai segregacionista, um Paraguai com fama de corrupção. Hoje se inicia a história de um Paraguai cujas autoridades serão implacáveis com os ladrões do povo', disse o novo presidente, vestindo um traje típico e simples, após prestar juramento num palanque ao ar livre.

Lugo, de 57 anos, não costuma usar terno e gravata e habitualmente calça sandálias, uma reminiscência do estado clerical que ele deixou oficialmente há poucas semanas, por decreto do papa Bento 16, para poder assumir a presidência do país. Ele já havia se desligado do sacerdócio para se dedicar à política.

O agora ex-presidente Nicanor Duarte Frutos preferiu entregar a faixa presidencial ao Congresso, e não diretamente ao sucessor, o que fez com que ambos não se encontrassem -- apesar de não haver inimizade pessoal entre eles.

No pronunciamento que fez na praça do Congresso, diante do olhar dos colegas Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner (Argentina), Lugo pediu aos vizinhos que tenham 'objetividade e solidariedade'.

Uma das principais promessas de campanha de Lugo é renegociar o valor que Brasil e Argentina pagam pela energia gerada nas usinas binacionais de Itaipu e Yaciretá, respectivamente.

Apesar do discurso de esquerda, Lugo escolheu um ministério moderado e se mostrou disposto a abrir as estatais ao capital privado, num modelo misto de gestão, além de promover boas relações com os EUA.

A posse dele reuniu os principais dirigentes esquerdistas da região, como Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). Já os centro-direitistas Álvaro Uribe (Colômbia) e Alan García (Peru) preferiram enviar representantes.

De fora da região, o único mandatário presente era o presidente de Taiwan, já que o Paraguai é um dos poucos países do mundo que reconhece o governo da China nacionalista, e não o de Pequim.

Ao som de música folclórica, a posse foi assistida por milhares de paraguaios, que mantinham o clima de festa apesar da longa espera sob o sol. 'A vida inteira pedi um homem justo para o meu país. E acho que meu coração e Deus estão dizendo que esse que hoje está jurando diante do povo é este homem justo', disse a dona de casa María Elodia Nendieta.

Os presidentes e representantes estrangeiros assistiram a uma missa na catedral, à qual Lugo chegou em carro aberto, já portando a faixa presidencial sobre a camisa branca. Em seguida, ele recebeu cumprimentos e ofereceu um almoço no palácio.

O venezuelano Chávez permanecerá no Paraguai para, no sábado, firmar tratados bilaterais que resultarão no envio de combustível em condições preferenciais e possivelmente em investimentos da Venezuela para uma refinaria no Paraguai.

'Viemos a uma reunião histórica. A reunião com Lugo é uma reunião com a história', disse Chávez ao pousar na quinta-feira em Assunção, onde agora deve passar a ter uma presença tão constante quanto na Bolívia de Evo Morales. 'Não pudemos anteriormente ultrapassar certos limites [no Paraguai], agora estou certo de que vamos fazê-lo'.

(Reportem adicional de Mariel Cristaldo)

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