Lugo sonha com grande pátria latino-americana, mas é advertido por Lula sobre Itaipu

O presidente eleito paraguaio, Fernando Lugo, disse nesta segunda-feira que sonha com a grande pátria de uma América Latina integrada e sem fronteiras, mas foi advertido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o tratado de Itaipu não será revisto.

AFP |

"Continuo sonhando com a grande pátria, com uma América Latina integrada, sem fronteiras", declarou Lugo, vencedor das eleições paraguaias de domingo, que insistiu em rever o acordo de Itaipu, para que o Paraguai receba "um preço justo" pela energia vendida ao Brasil.

Lugo disse que vai explorar todos os canais de negociação com o Brasil, mas não descartou recorrer aos tribunais para defender os interesses paraguaios em relação a Itaipu.

Lula cumprimentou Lugo por sua vitória, mas advertiu que o Brasil não revisará o tratado da represa binacional, com exige o ex-bispo de esquerda.

"Em Itaipu temos um tratado e vamos mantê-lo. Um tratado não de modifica", afirmou Lula.

Na entrevista à rádio católica "Fé e Alegria", Lugo destacou que quer "continuar sonhando com os povos da América Latina", e citou vários presidentes da esquerda da região: "Com os povos de Correa, de Bachelet, de Tabaré", referindo-se aos presidentes Rafael Correa (Equador), Michelle Bachelet (Chile) e Tabaré Vázquez (Uruguai).

"Também com o de Evo (Morales, presidente da Bolívia), que entrou em contato conosco às duas da manhã para saber o resultado de domingo e se colocou à nossa disposição", contou.

"Ou mesmo com Kirchner... e com Chávez", disse, referindo-se aos presidentes Cristina Kirchner (Argentina) e Hugo Chávez (Venezuela).

"E com a Nicarágua", acrescentou.

"Vamos tecer uma relação que será bastante positiva no futuro", adiantou. "O Paraguai não pode ser uma ilha afastada, deve se integrar ao continente".

"Minha primeira medida é uma que tenho cravada no coração: a de nossos povos indígenas", pela "dívida histórica que temos com eles, os verdadeiros donos originários desta terra", anunciou Lugo, que foi bispo de San Pedro (400 km ao norte de Assunção), região mais pobre do Paraguai.

"Chega de indígenas morrendo de fome, tuberculose ou falta de atenção", afirmou.

"A partir de agora começa uma nova era da política paraguaia", disse.

"A história muda, cai o Partido Colorado, mudam as estruturas" do Paraguai, afirmou o ex-bispo, que derrotou a governista Blanca Ovelar, pondo fim aos 61 anos de poder colorado, incluindo os 35 de ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

"O Partido Colorado governou para um grupo seleto de paraguaios. Isso acabou, e um governo para todos os paraguaios começa", assegurou Lugo, que venceu com 40,8% dos votos contra 30,8% de Ovelar, ex-ministra da Educação do atual presidente Nicanor Duarte.

"Que acabe isso de que é preciso ser colorado para trabalhar como funcionário público", acrescentou, ressaltando que seu governo será "aberto, honesto, transparente".

"Creio que é a primeira vez no Paraguai que um governo entrega o poder a outro de tendência diferente sem derramamento de sangue", frisou.

Lugo - declarado bispo rebelde e suspenso "a divinis" por envolver-se com a política - também comentou suas relações com os dirigentes da Igreja Católica. "Cada vez que me fazem essa pergunta sinto uma pontada no coração".

"Temos relações fecundas, históricas, que não foram esporádicas". Na noite passada "conversamos com padres e membros de muitas comunidades, que também são a Igreja, que não é apenas os dignitários".

O presidente eleito pediu perdão à Igreja pela "dor" que causou com sua desobediência às leis canônicas, ao se lançar na disputa presidencial: "Se minha atitude e minha desobediência às leis canônicas causaram dor, peço, sinceramente perdão aos membros da Igreja".

Lugo revelou que sua irmã será a "primeira-dama" do Paraguai: "Mercedes sempre foi minha conselheira, porque sou o mais novo de seis irmãos. Ela é muito trabalhadora".

O presidente eleito, segundo estadista solteiro do Paraguai depois de Eligio Ayala, em 1928, afirmou que deseja continuar vivendo em sua atual casa, no bairro de Lambaré, nas cercanias de Assunção.

Fernando Lugo também disse à AFP que ainda não está em condições de prever o futuro: "Não posso ver" o Paraguai daqui a cinco anos, afirmou.

"Estou tranqüilo, embora tenha o ânimo acelerado. Tranqüilo e desejando descansar, mas ainda não posso", afirmou.

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