Lugo herda um país castigado pela corrupção e pelo clientelismo

Luis Báez Assunção, 15 ago (EFE).- O novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que tomou posse hoje, encontrará um país governado nas seis últimas décadas por um partido monopolista identificado com a corrupção e o clientelismo para se manter por muito tempo no poder.

EFE |

Além disso, mais da metade dos 61 anos de hegemonia do Partido Colorado encerrada por Lugo, à frente de uma grande coalizão de amplo espectro político, foi durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

"Uma das coisas muito interessantes será o rompimento deste vínculo sorrateiro entre o partido e o Estado, e talvez a partir de agora possamos ter um conjunto de funcionários mais honesto, mais profissional", declarou à Agência Efe o analista Alfredo Boccia.

A futura ministra da Secretaria do Funcionalismo Público, Lilian Soto, disse que o Paraguai, de mais de 6 milhões de habitantes, tem 215 mil funcionários públicos, dos quais 42 mil ingressaram durante o mandato do atual presidente paraguaio, Nicanor Duarte.

Os funcionários "em sua maioria são colorados e temem perder seus privilégios e cargos. Em muitas instituições nunca houve uma observação (auditoria) opositora", declarou Boccia, ao afirmar que se Lugo "quer fazer bem as coisas deverá descobrir muitos casos de corrupção".

No entanto, o analista advertiu que esta tarefa poderia ser "fonte de atritos" com os colorados, que conservam a maioria nas duas câmaras do Congresso e que entrou em interinidade em primeiro de julho.

Duarte foi duramente criticado pelas manobras a favor do setor governista do partido e pelas milionárias doações recebidas de Taiwan, que tem no Paraguai o único aliado na América do Sul, para construir casas populares, assim como o dos fundos sociais da hidrelétrica de Itaipu, que divide com o Brasil.

A legislatura anterior impediu a discussão da renúncia apresentada por Duarte para jurar e assumir como senador eleito pelo boicote exercido pelos aliados de Lugo, que argumentam que o atual presidente tem garantido o cargo de senador vitalício e que este procura tirar proveito dos privilégios diante de eventuais denúncias de corrupção.

Uma pesquisa divulgada em meados de julho pela filial paraguaia da Transparência Internacional situou Duarte como o presidente mais corrupto do Paraguai nas últimas décadas, inclusive acima de Stroessner.

Outros relatórios da mesma organização colocaram o Paraguai na nada invejável relação de países mais corruptos do mundo.

A luta contra a corrupção foi uma das bandeiras de campanha de Lugo ao lado do combate à pobreza e do início de uma verdadeira reforma agrária no país onde 80% das terras exploradas estão nas mãos de 1% da população.

Em entrevista recente à Efe, Lugo reiterou que promoverá uma reforma agrária "mais consistente" e insistiu que o que o atual Governo fez foi "uma repartição de terras sem assistência técnica, nem creditícia, sem rumo", o que derivou em "assentamentos fracassados" e na migração do campo para a cidade.

"Quando se fala de reforma agrária há uma espécie de medo dos grandes proprietários, dos que não se sujeitaram à reforma agrária e têm grandes extensões de terra", disse Lugo, que garantiu que quem obteve sua terra legalmente não deve temer "perturbações de sua propriedade privada".

Após as eleições de 20 de abril, grupos de sem-terra, alguns deles aliados ao ex-bispo, ocuparam dezenas de fazendas em San Pedro, no centro do país, e ameaçaram realizar invasões se não tiverem uma resposta para suas reivindicações.

Os camponeses declararam uma trégua até que o ex-bispo assuma o poder, por isto as ocupações são consideradas iminentes, já que o fenômeno poderia se multiplicar espontaneamente ou por instigação, afirma Boccia.

De toda forma, o novo Governo recebe um país com indicadores macroeconômicos muito melhores do que há cinco anos, com crescimento de 6,8% em 2007 e contas públicas fortalecidas e saneadas. EFE lb/wr/fal

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG