Lugo herda crescimento e desigualdade social

O Paraguai que Fernando Lugo começa a governar a partir desta sexta-feira é um país com uma economia bem mais sólida do que aquela herdada por seu antecessor na Presidência, Nicanor Duarte Frutos. Nos últimos cinco anos, a economia paraguaia passou por um período de crescimento contínuo, evoluindo de pouco mais de 1% para quase 7%.

BBC Brasil |

A taxa de inflação, que era em torno de 15% em 2002, caiu para 6% em 2007. A dívida externa foi reduzida de aproximadamente 65% do PIB em 2002 para 40% em 2006.

No entanto, apesar da estabilidade macroeconômica, o novo presidente paraguaio vai receber também um país em que os problemas sociais foram acentuados nos últimos anos.

"Esse crescimento econômico teve muito pouco efeito sobre investimentos ou geração de emprego e, portanto, sobre a redução da pobreza", afirma o analista econômico paraguaio Fernando Masi.

Pobreza

Segundo Masi, apesar do crescimento de 6,7% do PIB em 2007, os índices de pobreza não baixam de 40%. Desses, 20%, ou 1 milhão de pessoas, estão em pobreza extrema.

No início do governo de Duarte Frutos, cerca de 18% da população estava em situação de pobreza extrema, diz Masi.

O analista político Edwin Britez, colunista do jornal ABC Color, diz que nos últimos anos também houve um aumento nos índices de violência.

Britez afirma que famílias inteiras deixaram o Paraguai para fugir dos problemas sociais do país. "Nos últimos cinco anos, cerca de 200 mil paraguaios foram morar no exterior, principalmente na Europa. Desses, pouco mais de dez mil em situação legal".

O embaixador brasileiro Valter Pecly Moreira, que em outubro completa quatro anos no posto na capital paraguaia, Assunção, também diz que o bom desempenho econômico teve poucos reflexos no campo social.

"Isso é uma herança que Lugo terá de equacionar, sobretudo porque é a sua promessa principal de campanha", afirma o embaixador.

Commodities

De acordo com analistas ouvidos pela BBC Brasil em Assunção, a estabilidade econômica dos últimos anos foi resultado da combinação de algumas reformas implementadas pelo governo de Duarte Frutos, como a tributária e no sistema de aposentadorias públicas, e de uma situação favorável no cenário mundial.

No entanto, esse desempenho não está livre de problemas.

Apesar de uma grande diversificação das exportações nos últimos anos, a economia paraguaia ainda é muito dependente das commodities agrícolas.

As exportações de soja do Paraguai totalizam US$ 1,6 bilhão, quase metade do valor total das exportações, de US$ 3,4 bilhões, diz Masi. "Se juntarmos carne e soja, representam quase 60% do total", afirma o analista econômico.

"O crescimento está baseado em dois pilares: as commodities agrícolas, que têm uso intensivo de capital, mas não de mão-de-obra, e o comércio de intermediação, que também foi muito dinâmico nos últimos anos, sobretudo a partir de 2003", diz Masi.

"A dinâmica de crescimento do Paraguai não está baseada no uso intensivo de mão-de-obra. Depende muito do fator externo e, portanto, está exposta à volatilidade do fator externo", afirma.

Corrupção

O novo governo deverá enfrentar ainda outros problemas antigos do Paraguai, como corrupção, burocracia e insegurança jurídica, afirmam analistas.

"Os investidores vêem muito risco, por causa da insegurança jurídica. O Estado de direito não está bem implantado no Paraguai", diz Masi.

"O Estado é um agente econômico importante. E pouco institucionalizado. Não houve muitos avanços na institucionalização do Estado. Ou seja, em uma atitude mais eficiente do Estado e em menores níveis de corrupção".

De acordo com Masi, a pressão tributária é muito baixa no Paraguai. Com pouco dinheiro, o Estado não consegue criar condições para investimentos, geração de emprego ou para regular o mercado, diz o analista.

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