Assunção, 24 abr (EFE).- O ex-bispo Fernando Lugo e o núncio apostólico no Paraguai, Orlando Antonini, se reuniram hoje para buscar uma saída à inédita situação que enfrenta a Igreja Católica com a eleição de um prelado rebelde como presidente.

Antonini não quis comentar os detalhes do encontro realizado na sede da campanha eleitoral do ex-bispo, para quem sua relação com a Igreja depende "deles" (do Vaticano).

Fernando Lugo, que reconheceu que para Roma é "um bispo rebelde", quer "continuar pertencendo a esta Igreja", a qual tanto ama, e, "ao mesmo tempo, buscar uma saída de consenso que beneficie todos, sobretudo o povo paraguaio".

Por sua vez, o presidente da Conferência Episcopal Paraguaia (CEP), Ignacio Gogorza, reiterou hoje que o Direito Canônico não prevê a redução ao estado laico de um bispo e admitiu que Lugo pode negociar seu retorno, caso tenha completado seu mandato.

Mas, para isso, o papa Bento XVI deveria conceder a Lugo uma dispensa especial antes que assuma o poder, em 15 de agosto. Os hierarcas da Igreja paraguaia consideram muito remota a possibilidade da excomunhão do futuro presidente.

"Se a Igreja lhe permitir (voltar), pediria a ele um ou dois anos de reflexão, de retirada espiritual, de penitência, com certeza. Não é muito fácil deixar hoje o episcopado e dizer amanhã: 'Eu volto'", disse Gogorza a imprensa local.

Ele acrescentou ainda que a Igreja Católica "está doída pelo que aconteceu, mas aceita, reconhece a Presidência de Lugo e deseja que ele tenha êxito em sua nova etapa".

Logo depois de vencer as eleições, domingo passado, Lugo pediu perdão publicamente pelo "dano" que possa ter causado à Igreja com sua decisão de entrar na política.

Na última segunda-feira, o porta-voz da Santa Sé, o jesuíta Federico Lombardi, disse à Agência Efe, em Roma, que o assunto relativo a Lugo passa por definir corretamente sua situação, já que "era um bispo".

"É uma questão jurídico-canônica sobre sua função, seu status na Igreja. Não é um problema de relações diplomáticas", explicou.

Lombardi destacou que, há muito tempo, e por causa da suspensão, Lugo não exercia o Ministério episcopal. E que o fato de que tenha vencido as eleições não representa ter de adotar de maneira "urgente" novas medidas em torno de seus laços com a Igreja.

No entanto, a cautela das autoridades religiosas contrasta com o otimismo do irmão do futuro governante, Pompeyo Lugo.

"Posso assegurar que meu irmão, em 15 de agosto de 2013, voltará a ser pastor (...), vai continuar sendo bispo e, talvez, chegue a ser cardeal. E Deus queira que chegue a ser o primeiro papa latino-americano", afirmou hoje o irmão do presidente eleito.

Três dias após se confirmar a vitória de Lugo, os bispos declararam, após uma reunião com Antonini, que respeitam "o presidente eleito do Paraguai" e que manterão "as relações de colaboração entre a Igreja paraguaia e o Estado".

O ex-bispo disse ter sido presenteado por Antonini com uma pena "que eles têm como símbolo papal e do Vaticano".

Lugo tirou os "colorados" do poder à frente de uma coalizão opositora liderada pela segunda força eleitoral e formada por diversos partidos minoritários e grupos de diversas ideologias, em sua maioria de esquerda.

O novo presidente paraguaio, de 56 anos, suspenso "a divinis" pelo Vaticano em janeiro de 2007, que recusou sua renúncia ao estado clerical para se dedicar à política, deu fim, no domingo passado, a 61 anos de hegemonia do Partido Colorado, o mais antigo do poder na América Latina. EFE lb/db

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