Lucas Mendes: Sonia, irmã suprema

Nossa irmã vai levar uma surra dos conservadores e, se surgir um podre, pode não ser confirmada para o Supremo Tribunal a primeira hispânica na história, mas neste momento ela é irresistível.

BBC Brasil |

Sonia é uma Obama latina. Teve uma infância tão difícil ou pior do que a do presidente.

Um conjunto habitacional do Bronx, onde ela cresceu, é um andar acima de uma favela. Naquelas décadas, 50 e 60, as drogas não tinham chegado lá.

Havia os pobres, os miseráveis, os estranhos e os drogados, mas não a criminalidade que disparou a partir dos anos 80. Aos 8 ela soube que era diabética e aos 9 perdeu o pai.

A mãe, telefonista numa clínica médica, trabalhava seis dias por semana e fazia um curso de enfermagem que, no fim da contas, pagou a educação da filha e da irmã.


Obama indica Sotomayor para a Suprema Corte / AP

Fins-de-semana com Cantinflas e merengue com as amigas, o prato favorito da casa era uma versão portorriquenha da feijoada com orelha, pé e língua de porco.

Estava sempre entre as primeiras da turma na escola católica. O primeiro sonho, inspirado nos romances policiais de Nancy Drew, era ser detetive.

O médico explicou que diabetes eliminava esta possibilidade. Na TV, num capítulo de Perry Mason, percebeu que a pessoa mais importante era o juiz. Foi o momento "este é o cara", esta é minha carreira.

Foi oradora da turma e entrou em uma das melhores universidades americanas, Princetown, mas se sentiu tão intimidada que no primeiro ano não abriu a boca na sala de aula. No segundo, desbundou.

Numa escola onde as minorias não passavam das dezenas baixas, Sonia se conectou com empregados negros, movimentos latinos, fumava, bebia cerveja e mandava ver na salsa.

De Princentown foi para Yale onde foi editora da revista de leis, ativista política, casou com um biólogo, se divorciou, trabalhou num escritório grã-fino de advocacia na área de propriedade intelectual e direitos autorais.

Por um salário muito menor foi trabalhar na promotoria pública de Nova York como assistente de promotor, onde processou de crimes menores a homicídios.

Durante este período, viveu um momento cinematográfico quando participou de uma batida num depósito em Chinatown em busca de produtos falsificados.

Os suspeitos saíram correndo pelas ruas e ela atrás, em perseguição, numa moto. Foi nomeada juíza pela primeira vez por George Bush, o pai, e depois, promovida por Bill Clinton. Em 91, o senador Daniel Patrick Moyniham foi profético: vai ser a primeira latina na Suprema Corte.

Depois de mais de três mil decisões, os republicanos e ativistas conservadores concentram o fogo numa decisão controvertida e no parágrafo de um discurso.

A decisão foi sobre ação afirmativa movida por 17 bombeiros brancos e um latino de New Haven, em Connecticut, que se sentiram prejudicados nas promoções. Ela foi a favor dos negros. A questão aguarda decisão do Supremo.

A frase controvertida, de fato controvertida, foi tirada do contexto de um longo discurso, mas na hora da audiência do senado para confirmação o foco vai ser neste parágrafo: "Eu acho que uma sábia mulher latina, com a riqueza das suas experiências de vida, pode chegar a conclusões melhores com mais frequência do que um branco".

Embora nada no currículo jurídico dela indique um preconceito racial, a frase é racista. Se um branco dissesse que suas decisões eram mais sábias por motivo de raça, estaria queimado.

Dona de um modesto apartamento de US$ 300 mil no Village, com menos de R$ 200 mil na poupança, Sonia Sotomayor não tem o charme, o brilho, nem a inspiração de Obama diante das câmeras, mas a biografia, o currículo jurídico, a inteligência e a presença dela despertam emoções semelhantes às do presidente.

Foi uma grande jogada política dele? Vai ser difícil bater na juíza na frente das câmeras quando for questionada pelos senadores. Na última eleição, os republicanos só conseguiram 37% dos votos latinos e perderam entre as mulheres. Vários senadores republicanos que vão sabatiná-la já votaram nela para juíza federal.

Sonia Sotomayor aflora o que há de melhor na democracia americana. No século 19, há 180 anos, um advogado francês Alexis de Tocqueville escreveu um dos melhores livros, senão o melhor já escrito, sobre os Estados Unidos: Democracy in America.

Comparado com a França, Inglaterra, Espanha e outros reinados europeus, o país era uma republiqueta endividada, frágil, sem importância geopolítica.

Tocqueville escreveu que o século 20 seria dominado por dois países, um do bem, outro do mal: os Estados Unidos e a Rússia que, na época, também era um paiseco perto dos impérios europeus.

Qual era o segredo americano? A resposta mais comum: liberdade. Errado. Igualdade é a resposta certa. Esta é a mensagem da vitória de Obama em novembro e da indicação da irmã Sonia Sotomayor.

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