Lucas Mendes: Preto em branco (e vice-versa)

Será que os Obama com o reinado (cada vez menos encantado) na Casa Branca são os inspiradores desta onde negra no cinema? Há três semanas estreou Precious, um filme deprimente e devastador, sobre uma adolescente do Harlem, obesa, sexualmente abusada pelo pai desde os três anos e física, mental e emocionalmente abusada pela mãe. Precious, engravidada pela segunda vez pelo pai e à beira do precipício moral, é salva pela assistente social branca e pela a infra-estrutura escolar do bairro.

BBC Brasil |

Às vezes é difícil olhar a tela, mas o filme que estreou em apenas 18 cinemas rendeu US$ 1,8 milhão em dois dias, US$ 100 mil por cinema. Um número altíssimo e raro. Gabby Sidibe, que faz a adolescente, e a cantora Monique, que faz o papel da mãe, são cotadas para o Oscar, bem como o filme e seu diretor, Lee Daniels. Se a expectativa for confirmada, quebrará vários recordes raciais e Daniels será o primeiro diretor negro indicado para o prêmio.

Nesta semana, os três primeiros lugares na bilheteria americana são The Princess and the Frog, Blind Side e Invictus, todos com personagens centrais negros, e só a Princesa Negra não tem uma conexão essencial branca.

Nunca na história do cinema americano três filmes sobre personagens negros lideraram as bilheterias.

Você não precisa entender de rúgbi para torcer em Invictus, o filme de Clint Eastwood baseado numa história real sobre uma jogada política genial de Nelson Mandela, que para conquistar os brancos abraçou o esporte favorito dos racistas sul-africanos. Matt Damon é a conexão essencial do invicto Mandela.

Blind Side também é baseado numa história real, sobre Big Mike, um gigante adolescente negro sem teto nem afeto que é abordado e levado para a casa de uma milionária branca vivida por Sandra Bullock, também cotada para o Oscar. A persistência da mulher mandona e uma infra-estrutura social e afetiva, quase toda branca, levam o adolescente além do estrelato no futebol americano universitário.

Este ano Big Mike, o jogador Michael Oher, estreou como profissional nos Ravens, de Baltimore.

Há outra extraordinária história de esporte que em breve será filme de Hollywood. Sábado passado, o jogador Mark Ingram, um negro da Universidade do Alabama, ganhou o prêmio mais antigo e cobiçado do futebol universitário americano, o troféu Heisman. O técnico do time, um branco, também leva crédito pelo sucesso de Mark.

O pai, Mark Ingram Sr., assistiu à final decisiva do filho de uma prisão no bairro de Queens, em Nova York. Ele foi um ídolo do time dos New York Giants que disputou a final de 1991. Preso pela segunda vez este ano, vai passar pelo menos outros sete na prisão por fraude e lavagem de dinheiro falso.

Mark Jr. conta que quando era criança e adolescente, não entendia e nem sempre aceitava o rigor do pai nas lições sobre futebol que sempre dizia: "Um dia você vai entender". Este ano ficou entendido. Pai preso e filho herói se amam e se falam pelo menos três vezes por semana, por telefone.

E chegamos ao final desta história com o campeão das manchetes dos jornais americanos nas últimas duas semanas, o primeiro atleta americano a romper a barreira do bilhão de dólares, casado com uma escandinava com quem tem dois filhos, recordista nos campos de golfe e nas camas das amantes. Já surgiram mais de dez, quase todas branquíssimas.

Hollywood briga por roteiros sobre Tiger Woods, mas a resposta sobre a questão da cor não é em preto e branco. Tiger tem sangue de tailandês, chinês, índio americano, holandês e negro. Qual é a raça do tigrão? O filme, com certeza, vai ser colorido, mas a história da história desta onda negra no cinema americano ainda está mal contada.

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