Lucas Mendes: Pobre Jesus.

Passei pelos jesuítas, pelos beneditinos e me mantive um católico medíocre e desatinado, mas virei carola quando estudei com os franciscanos. Não sei porque, mas era tão carola que fui nomeado secretário da Congregação Mariana.

BBC Brasil |

Marchava na frente do colégio. Tinha missa? La estava eu de joelhos, com a língua pra fora, faminto pela hóstia. E nunca roubei vinho da sacristia.

Tinha motivos de família para ser católico. Meu avô, Onofre, sustentava orfanatos. Meu tio, Murilo Mendes, irmão dele, foi um dos grandes poetas católicos do século 20, e foi morar em Roma - onde ganhou o prêmio Taormina - para ficar perto da casa de Pedro. Meu querido pai, gracas a Deus, era comunista e ateu.

De um dia para outro, por uma banalidade, lá se foi minha carolice. Havia um regulamento que todos livros trazidos para o internato onde eu estudava tinham de passar pelo crivo do padre que chefiava a biblioteca. Eu tinha ganho um livro, com dedicatória do Jean Paul Sartre - Furacão sobre Cuba (merreca de livro) - e o frei - Passarinho era o apelido dele - bateu um carimbão vermelho e assinou em cima do chamegão do Sartre. Tive um agnosticismo instantâneo e nunca me recuperei.

Durante todos anos de catolicismo fajuto, a leitura do evangelho e os sermões eram meus momentos de sacrifício nas missas. Mesmo quando a dicção e o português do padre eram bons, a maioria dos textos dos evangelistas eram parábolas enroladas. Porque Jesus não contava a historia com começo, meio e fim?
Vamos entrar nesta Semana Santa com mais um livro do teólogo Bart Ehrman na lista dos best-sellers. O autor de Jesus, Interrupted(Jesus, Interrompido) responde minhas dúvidas e de milhões de outros cristãos e ex- cristãos frustrados pelos textos bíblicos.

Nascido no Kansas, Bart Ehrman, criado como protestante moderado, teve uma revelação na adolescência e se tornou um fundamentalista evangélico que acreditava na Bíblia como transcrição das palavras de Deus.

Aprendeu grego para ler os textos na linguagem mais próxima do original, estudou no Moody Bible Institute, no Colégio Evangélico de Wheaton e no Seminário Teológico de Princeton. Foi aí que teve outra revelação com a História Crítica da Bíblia.

Concluiu que a Bíblia não pode ser levada ao pé da letra, o alfabeto religioso e a matemática não batem. O resultado da soma dos quatro evangelhistas é inconsistente porque as narrativas de João, Marcos, Mateus e Lucas são diferentes e contraditórias.

Só em João, nos conta Ehrman, Jesus assume que é uma divindade, filho de Deus, mas a questão da Divina Trindade só aparece nos textos gregos depois do século 9 e até hoje é mal processada por uma religião que pretende ser monoteísta. Afinal, Deus é o Pai, o Filho ou é o Espirito Santo?
O novo testamento foi reescrito e reeditado por diferentes escribas. Entre várias alterações, Jesus nunca contou a parábola da primeira pedra na prostituta e nem sempre sua redação, João e companhia, entenderam as histórias do mestre. Cada um interpretava a maneira dele e passava adiante. Hoje, padres e pastores, reinterpretam como querem no sermão e nenhum se dá ao trabalho de explicar que há controvérsias sobre o texto.

Bart Ehrman começou a apontar contradições na Bíblia há mais de dez anos e publicou outro best-seller em 2006, Misquoting Jesus, the Story Behind Who Changed the Bible and Why. Ele dirige o Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, mas não se alinha com o famoso trio de ateus, Christopher Hitchens, Richard Dawkins e Sam Harris. Ehrman se define como um agnóstico feliz. Acredita que Jesus existiu e foi um dos homens mais importantes e distorcidos da história.

O censo americano não pergunta sobre religião, mas a maior pesquisa feita nos últimos anos, pelo Pew Forum on Religion and Public Life, com 35 mil entrevistados, revelou esta semana que um em cada cinco adultos americanos um não tem filiação religiosa. O número dobrou desde 1980. A católica e as protestante foram as que mais perderam fiéis. Pobre Jesus.

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