Lucas Mendes: O pique dos dinossauros

Barbara Walters, a única octogenária no telejornalismo americano, mais do que lúcida, está esperta, inteligente, atraente. E pé-de-boi.

BBC Brasil |

Semi-aposentada no jornalismo diário, ainda faz matérias especiais e entrevistas, sua especialidade. Há doze anos apresenta todos os dias sua criação The View, um Saia Justa matinal com cinco mulheres.

Barbara deu certo desde o começo da carreira, como redatora da CBS e encanou o pé em 61, como redatora e pesquisadora do show Today , o Bom dia Brasil da NBC. Era uma Today Girl, com funções menores de meteorologista, matérias leves e minientrevistas.

Em pouco mais de um ano, ela já era repórter, escrevia, editava suas próprias matérias e entrevistas apesar das objeções do apresentador, que só concordava em entrevistas conjuntas se ele fizesse a primeira pergunta.

Ela faz todos os anos o "especial" antes do Oscar, onde entrevista os prováveis vencedores ou nomeados polêmicos. No seu outro programa com longa vida na televisão, The Most Fascinanting People of the Year, que já dura 16 anos, entrevista as pessoas mais fascinantes do ano. Foi ao ar nesta quarta. Barbara é mais fascinante do que a maioria dos entrevistados que somem do cenário em poucos anos, mas, naqueles minutos, gracas a ela, parecem eternos.

O grande salto de Barbara foi no fim da década de 70, quando o salário médio dos jornalistas de TV era de US$ 57 mil por ano e o âncora mais bem pago, Walter Cronkite, ganhava US$ 650 mil. Uma fábula.

Roone Arledge, o chefe do esporte da rede ABC, até então a telepiada do telejornalismo, assumiu o comando do jornal. Naquela época, os executivos estufavam o peito quando contavam os prejuízos que suas redes tinham com os departamentos de jornalismo. Era uma divisão de serviço público.

Roone Arledge rompeu todas as barreiras salariais e tecnológicas e destruiu o orgulho deficitário. Roubou algumas das maiores estrelas das outras redes e ofereceu US$ 1milhão a Barbara Walters. O salário mais alto do jornalismo. Transmitido ao vivo, a rede tinha âncoras em Nova York, Washington e Londres. Foi a década de ouro do telejornalismo. Jornalistas tornaram-se celebridades e milionários e jornalismo se transformou em carreira de sonhos.

Durou uns vinte anos. Hoje os âncoras ainda são convidados para jantar na Casa Branca, tem salários altos, mas a profissão perdeu glamour e salários. Graças à internet e a simplificação dos equipamentos, muitos repórteres de vídeo começam com salários da imprensa escrita, menos de US$ 50 mil por ano.

Se Barbara Walters, aos 80, é uma das maiores estrelas do telejornalismo, Jim Lehrer, aos 75, é uma das sua maiores antiestrelas. Há 34 anos ele ancora a rede PBS, a rede pública que não tem fins lucrativos mas não deve ser confundida com rede estatal. Quem assiste e gosta, manda sua contribuição. Pela postura discreta, combinada com a falta de conexões comerciais da rede, Jim Lehrer tornou-se o moderador recordista dos debates presidenciais, 11, o último entre Barack Obama e John McCain.

Na vida pessoal tem duas paixões - ônibus e livros. Já escreveu 22 romances, dois roteiros de cinema e três peças. A paixão pelos ônibus é mais antiga do que a carreira jornalística. Vendia passagens na empresa Trailways. Hoje é patrono de dois museus, um na Califórnia e outro na Pensilvânia.

Depois de uma cirurgia cardíaca para trocar uma válvula, a aposentadoria parecia uma certeza e surpreendeu os colegas quando voltou, em junho, num pique acelerado disposto a competir com as lebres da internet.

O nome dele já não aparece no título do telejornal das sete - antes, Newshour with Jim Lehrer -, mas agora comanda uma revolução no novo formato com vários âncoras na mesa e uma conexão íntima com a internet. Até então avesso a modernidades virtuais, ele está pronto para "tuitar".

Viva Barbara e Jim, dinossauros serelepes do telejornalismo.

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