Lucas Mendes: O novo velho McCain

Ninguém se lembra de um grande discurso de John Sidney McCain III e o da convenção republicana vai entrar para a lista dos esquecidos. Um xarope.

BBC Brasil |

E esta é a mensagem importante: não é preciso ser grande orador para ser presidente dos Estados Unidos.

Você se lembra de algum orador pior do que George W. Bush?
A forma às vezes é mais importante do que o conteúdo e os republicanos são campeões do pacote. Foram duas noites brilhantes na convenção. A terceira dominada por uma Sarah Ninguém que, em menos de cinco dias, se transformou em Super Sarah, capaz de reduzir Barack Obama a um político municipal sem nenhum passado.

Durante três dias, os republicanos reforçaram a mensagem que são o partido da devoção, do patriotismo e do sacrifício pelos Estados Unidos. O Democrata é o partido dos frouxos.

Se Sarah Palin foi a surpresa da terceira noite, Cindy McCain foi a revelação da quarta. Ela era conhecida pelos discursos curtos, de um ou dois minutos, apresentando o marido. Dava a impressão de que tinha medo, detestava ou não sabia falar.

O vídeo de apresentação dela não escondeu os milhões que herdou do pai, mas revelou mais do que uma arisca, uma mulher interessante, ativa em questões sociais, envolvida em corrida de automóveis e nas decisões da família.

Numa noite tivemos a mãe Sarah e o filho com a síndrome de Down. Noutra, tivemos a mãe Cindy, com a filha que adotou em Bangladesh com vários problemas de saúde.

Os republicanos - e também os democratas - dizem que questões familiares não fazem parte da política, mas os republicanos não perdem a oportunidade de explorar um momento fotogênico capaz de atrair lágrimas e votos.

McCain é muito melhor orador do que George W. Bush, muito pior do que Barack Obama, mas sabe dar o recado e não esconde suas experiências de guerra, prisão e tortura no Vietnã. A história é boa, pega a audiência e foi usada de novo com mais eficiência do que os seus planos para salvar a economia americana.

Na prisão do Vietnã que ele teve uma epifania: foi salvo pelos Estados Unidos e sua missão é lutar e salvar os Estados Unidos. Por trás da retórica patriótica é possível ver o homem e o líder. Não é candidato à Presidência por acaso, mas é muito diferente do McCain de 2000, que suspendeu a campanha negativa contra George W. Bush, hostilizou a direita cristã, ficou famoso pela independência, rebeldia e pelo temperamento explosivo no Senado.

Fez conexões com os democratas contra os interesses do próprio partido, quase esmurrou colegas, não economizou palavrões nem insultos, bateu de frente contra companhias de cigarro, uso de esteróides, mamatas da Boeing, corrupçãocorporativa, verbas extravagantes para projetos absurdos como a ponte para lugar nenhum do Alasca que sua vice não construiu, mas aceitou o dinheiro de Washington.

Não está mais aqui o McCain contra a redução dos impostos de George W. Bush nem o McCain pró-imigrante ou contra a direita religiosa, nem o McCain incapaz de campanhas negativas.

Na próxima semana é possível e até provável que ele passe na frente de Barack Obama nas pesquisas. O discurso de Sarah Palin teve quase tanta audiência quanto o de Obama na convenção democrata que bateu todos os recordes deste ano na televisão, inclusive das Olimpíadas e dos programas no horário nobre.

Os democratas vão começar a desconstruir Sarah Palin, concentrar nas fraquezas da economia, associar McCain a Bush, cujo nome, mais uma vez, não foi pronunciado em nenhum dos discursos importantes nem nos vídeos.

Os republicanos vão se concentrar na falta de experiência de Barack Obama em segurança nacional, política internacional, nos tradicionais aumentos de impostos e dependência dos democratas no governo.

Uma das poucas qualidades do discurso de McCain na convenção foi não agredir Barack Obama, mas, daqui por diante, os dois partidos vão jogar no ataque.

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