Lucas Mendes: Notícia ruim? Foi engano.

Hoje os americanos têm duas abominações (na próxima semana serão outras): Bernie Madoff, o escroque, e AIG, a seguradora. Não há uma conexão direta entre os dois, mas todas as manhãs, quando ligamos as tevês ou abrimos os jornais, são as palavras do dia.

BBC Brasil |

À noite abrem o noticiário.

Neste país da ritalina e do ADD, a maioria da população funde ou
Confude Madoff com AIG.

E se não fosse a Grande Recessão, Bernie Madoff ainda estaria dando o cano na praça, a AIG estaria acumulando mais dívidas envenenadas e distribuindo bônus milionários.

Um tem tudo e não tem nada a ver com o outro.

Rápidas apresentações: Bernie Madoff foi presidente da Bolsa Nasdaq de NY e um gênio de investimentos que davam retornos sempre acima de 12% ao ano em qualquer cenário econômico.

Bolsa em queda? Madoff em alta. Sempre. Houve suspeitas e até denuncias, mas ninguém prestou atenção.

A recessão do Bush pai, no começo da década de 1990, não encostou nele, nem a do Bush fiho, em 2002.

Dinheiro pro Madoff? Retorno garantido. Universidades, organizações de caridade, fundos de pensão de Estados, cidades, poupanças de amigos e parentes, todos queriam entregar o dinheiro a Madoff. Tudo evaporou.

Ele recolheu US$ 65 bilhoõs, mas desta recessão ele não escapou. Quando os investidores começaram a pedir o dinheiro de volta, ele quebrou.

Foi em dezembro. Nunca investiu fora das contas da própria família, e dos US$ 65 bilhões seus contadores dizem que sobraram uns US$ 800 milhões.

Os Madoffs - mulher e filhos - querem ficar com o dinheiro.

Nem que a vaca tussa.

A AIG era a maior seguradora do mundo, com 74 milhões de clientes, e um dia resolveu se aventurar no mercado financeiro, livre dos regulamentos.

Cresceu tanto que entrou naquela categoria dos grandes demais para deixar cair. O governo americano pegou US$ 180 bilhões do nosso dinheiro e comprou 80% da AIG.

Engolimos o remédio amargo como se fosse a única solução.

Agora ouvimos AIG e temos ânsias de vômito. Pegou quase US$ 200 milhões do nosso dinheirinho e distribuiu como bônus, a maior parte para executivos responsáveis pelo fracasso da seguradora.

Esta dose nauseante de noticias sobre Madoff - AIG vem acompanhada de outras não menos indigestas sobre falências, desempregos, imóveis desvalorizados e desapropriados, mergulhos nas bolsas.

E, agora, uma reação de protestos: CHEGA!!!
O New York Times
e as redes de televisão receberam milhares de e-mails e telefonemas. Responsabilizam a imprensa pela crise e pelo negativismo. Querem saber por que, antes de setembro, não avisaram que o mundo podia acabar.

A rede CNBC é um dos alvos, acusada de inflar a bolha da Wall Street.

Agora deu uma guinada e se tornou a voz populista das elites. Investe contra o governo Obama como se fosse o inimigo do capital. A audiência do canal está em alta.

Os números de apoio a Obama não caíram nas pesquisas, mas muitos acham que quer fazer mais do que pode e duvidam de alguns dos seus programas.

Clark Hoyt, ombusdman do New York Times
, recebeu tantas críticas sobre a omissão e o pessimismo do noticiário que encomendou uma revisão da cobertura econômica do jornal nos últimos 9 anos.

"Esta tudo lá", diz ele. Em 2000 - há 9 anos! - o jornal publicou uma matéria de 6 mil palavras sobre os empréstimos e hipotecas suspeitas na Califórnia.

O dinheiro vinha do Lehman Brothers e outros bancos de investimento da Wall Street que estavam empacotando e revendendo estas hipotecas fajutas.

Em 2005, uma outra matéria assinada apelos dois dos principais analistas econômicos comparava a explosão do mercado imobiliário com a bolha da internet da década de 90. Acertaram na cabeça.

É possível escapar do negativismo que domina o noticiário?
A rede NBC reagiu às críticas com um pedido à audiência: mandem-nos boas notícias. Foi inundada de e-mails e vídeos, alguns extraordinários.

Não tem equipes suficientes para cobrir tanta notícia boa. Estas e outras eu vou guardar para a próxima semana. Neste caso, quanto mais, melhor.

Para quem cansou de más notícias recomendo o tratamento Ricardo Gontijo: trocou os jornais e telejornais por vinhos, livros e filmes e uma mensagem definitiva no telefone: se for noticia boa deixe depois do sinal. Notícia ruim? Foi engano.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG