Lucas Mendes: Hillary cumpre seu papel na Convenção Democrata

No primeiro dia foram cinco horas de discursos e shows, mas o impacto político foi reduzido a menos de uma hora com os discursos de Ted Kennedy e Michelle Obama. Muita festa, pouco conteúdo.

BBC Brasil |

A palavra energia não foi pronunciada. Nem Iraque. Nem gasolina ou crise de crédito, inflação, poluição, déficits, propriedades perdidas, desvalorização do dólar, rendas em queda, desemprego em alta.

A liderança de Barack Obama continuava a evaporar diante de McCain, um adversário com carisma zero que se apresenta como independente, mas votou consistentemente com George W. Bush - o presidente com os índices de aprovação mais baixos nos últimos tempos, com oito em cada dez americanos convencidos que o país está no caminho da ferrugem enquanto a China corre para o ouro.

O partido explica que a intenção da primeira noite era definir Barack Obama e convencer os americanos que um líder sem experiência, como ele, tem um potencial extraordinário. E é um homem do povo, ótimo pai e marido, rico, mas sem luxo, que leva o lixo para a calçada à noite. Ordens de Michelle.

O espírito de não agressão foi mantido na terça-feira à noite pelo segundo principal orador, o ex-governador da Virgínia Mark Warner, que usou as mudanças econômicas e o próprio sucesso como homem de negócios para oferecer uma visão de mudança e esperança.

Warner não é cão de ataque. Ele criticou Bush de passagem, mas se concentrou no futuro, nas possibilidades da ciência e tecnologia. Um discurso potente, mas raro em convenções.

Seu governo foi marcado pela conciliação entre democratas e republicanos e Virgínia é um dos 11 Estados cruciais em 2008. Nas duas últimas eleições votou em George W. Bush, mas, graças a Mark Warner, pode ser decisivo para Barack Obama.

Brian Schweitzer, governador de Montana, foi uma das surpresas da noite com um discurso que tirou os convencionais de suas cadeiras com a promessa de um país verde: "O barril de petróleo mais importante", disse ele, "é o que não for usado".

E pau nos republicanos. Tudo que faltou na terça-feira estava no discurso dele. Pode ser o novo Barack Obama.

Chegou a vez de Hillary Clinton, apresentada com um vídeo narrado pela filha Chelsea.

Ia fazer talvez o segundo discurso mais importante da vida dela. O primeiro foi em junho, quando admitiu a derrota para Obama nas primárias.

Este, também como derrotada, era tão ou mais difícil. Se exagerasse poderia soar falso e hipócrita. Se moderasse, poderia parecer mesquinha, ser responsabilizada pela divisão do partido e pela derrota de Obama. Em ambos os casos, o futuro político dela ficaria mais difícil.

Hillary não morre de amores por Obama e é correspondida. O nome dela saiu da lista de possíveis vices em menos de um minuto e até hoje não recebeu nenhuma ajuda de Obama para pagar os US$ 24 milhões que ainda deve da campanha.

Obama nunca menciona os sucessos da Presidência Clinton nos seus discursos, mas a fama de rancorosa de Hillary é exagerada.

Ela perdeu a primeira eleição ainda na escola, quando queria ser presidente da união estudantil. Era a única candidata, e os colegas disseram que não tinha chances porque era mulher. A primeira decisão do vencedor foi oferecer a ela a função mais importante da união, e ela aceitou.

No discurso, Hillary Clinton superou as expectativas, foi politicamente generosa, nem acima nem abaixo das medidas.

Inspirada no exemplo de homens e mulheres que lideraram movimentos de direitos de mulheres e negros, ela citou mais de dez vezes o nome de Barack Obama como o líder capaz de tirar o país deste momento sombrio: "Quando minha mãe nasceu, as mulheres não tinham direito de votar. Minha filha votou em mim para presidente", foi uma das citações de um discurso que podia ser feito como se fosse a candidata do partido à Presidência.

O parágrafo mais altruísta e pró-Obama foi quando ela perguntou aos partidários se tinham feito todo aquele esforço para ela ou para o partido e o país. O importante, disse Hillary, é colocar o democrata na Casa Branca.

Se Barack Obama não recuperar a liderança nas pesquisas e o partido não sair unido desta convenção, não será culpa de Hillary Clinton. Hoje à noite, a marcha, a voz e a vez de Bill Clinton.

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