Lucas Mendes: Gigi, flor negra e falsa

Se você nunca ouviu falar de Gigi Gaston, a Flor Negra, há uma exibição sobre ela na galeria Steven Kasher na rua 23, em Chelsea. É provável que os pôsteres enormes, ilustrações, capas de revistas, filmes e seus discos um dia cheguem até você.

BBC Brasil |

Talvez não. Conto a história.

Gigi Gaston, filha da cigana Milka, nasceu logo depois da Segunda Guerra, numa família paupérrima na Bulgária.

Sofreu perseguições locais e depois escapou do comunismo fugindo para a França com a mãe e os dois irmãos, mas não escapou de um convento das Carmelitas onde trabalhava 12 horas por dia. Labor Omnia Vincit , o trabalho conquista tudo, era o lema das implacáveis freiras.

Já adolescente, miserável mas alfabetizada e disciplinada a palmatórias e privações carmelitas, foi recomendada pelas freiras para trabalhar na casa da rica e generosa família Gaston, em Paris, durante o verão.

Gigi descobriu o paraíso e na hora de voltar para a prisão Carmelita fez uma cena tão dramática que a família não só concordou que ela ficasse como foi adotada pelo adorável casal, que tinha um filho, Etienne, um pouco mais velho que Gigi.

A ciganinha aprendeu violão, compunha, e aconteceu o inevitável: ela e o irmão adotivo se apaixonaram.

A carreira dela decolou. O primeiro disco, Je suis Ici (Ou est tu), um 45 rpm, vendeu 2 milhões de cópias em 61. Celebridade da noite para o dia. Os pôsteres e capas de disco na galeria sugerem uma mistura de François Hardy, Juliette Greco e Sylvie Vartan, que teria ficado com tanta inveja de Gigi que ameaçou abandonar a carreira.

Gigi criou a própria linha de roupas, tinha aquele olhar fundo de noite passada em claro, mas era dócil. Gloria Steinem disse que Gigi atrasava o movimento feminista, mas para Jean Genet ela era uma santa. Planejava escrever uma canção para Gigi. Virou garota propaganda do cigarro Gitanes, posou com os Beatles , saiu nas primeiras páginas das revistas.

Veio a tragédia. Numa noite de chuva brutal, sua grande paixão, Etienne, perdeu o controle do carro, bateu e morreu. Nunca ficou esclarecido se havia álcool ou sexo na derrapagem fatal.

Gigi mergulhou na fossa parisiense e saiu dela quando encontrou o ator Giorgio Fortuna. O casamento foi capa da revista Paris Match e o novo amor inspirou novos sucessos, muitos deles canções românticas fatalistas. Jean Luc Godard fez , que está à mostra na galeria.

Há uma citação de Norman Mailer, de 1974, que compara a Flor Negra a Edith Piaf e pergunta se "ela poderia imaginar que o futuro estrangularia os sonhos dela de uma vida normal? Não, claro que não porque os personagens das tragédias gregas são sempre os últimos a saber dos seus destinos".

Pah! Veio a segunda tragédia. Gigi descobriu que era traída por Giorgio com Rossana. Ferida e enfurecida, matou o marido a tiros.

Na França, foi chamado de O Julgamento do Século. O marido era um canalha que traía Gigi com várias mulheres e torrava o dinheiro dela nas noites romanas. Gigi foi absolvida, mas um dia, sem nenhuma explicação, desapareceu. Nunca mais foi vista.

Porque Gigi Gaston nunca existiu. É criação do pintor, produtor, fotógrafo e ilustrador Josh Goslfield que foi diretor de arte durante oito anos da revista New York e trabalhou como freelancer para The New Yorker, Time, Newsweek, enfim, a grande imprensa americana. Já teve exibições em Nova York e Los Angeles, dirigiu videoclipes e seus curtas entraram em vários festivais.

Josh levou um ano para criar sua filha Gigi. A concepção inicial era simples: recriar o mundo musical pop e artístico parisiense da década de 60. Mas Gigi cresceu, virou uma celebridade como tantos ídolos musicais e não musicais criados pela cultura de massa, alimentada pela multiplicidade e velocidade da mídia. Celebridade hoje, esquecida e abandonada amanhã. O grande sucesso de Gigi foi Je Suis Perdu, composição de Josh com ajuda de músicos. Gigi foi um parto de equipe dirigido por Josh.

Milhares de pessoas que ouviram as canções de Gigi Gaston na internet acreditaram nela. Afinal, 99% dos americanos não conhecem os cantores ou celebridades francesas da década de 60. Vale curtir a história - é só clicar , ouvir as músicas - clichês, mas não ofendem - ver os pôsteres, capas e assistir ao clipe que Godard nunca dirigiu sobre uma celebridade que nunca existiu.

Eu acho que Gigi não existiu, mas está viva, como milhares de celebridades, nas capas de revistas, tabloides, rádios e TVs.

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