Lucas Mendes: Deja vu, mocinho no trilho

Sábado vai ser aprovada ou rejeitada reforma da saúde proposta por Barack Obama. Um momento definidor desta Presidência.

BBC Brasil |

Ganha, cresce. Perde, encolhe.

Você quer experimentar uma dose possante de déjà vu? Leia o noticiário americano de 4 agosto de 1993. Não precisa. Eu te conto.

Foi assim: era a véspera da votação do plano econômico do recém-eleito presidente Bill Clinton, a primeira lei de peso da Presidência dele. Clinton, como Obama, estava baixo nas pesquisas, na faixa dos 50%.

Os democratas precisavam de 11 votos. Os republicanos estavam unidos, como hoje: "Não, não e não".

Vinte e sete democratas tinham anunciado que planejavam votar contra o plano do partido porque aumentava impostos dos que ganhavam mais de US$ 150 mil por ano e criava outro de US$ 0,43 no galão da gasolina.

"Vai envenenar a economia e destruir empregos", dizia um dos lideres republicanos.

"Os republicanos não estão interessados em governar. Só sabem dizer 'não'", respondia um democrata na Câmara.

Na manhã da votação, pelas portas francesas do Salão Oval, o presidente Clinton podia ser visto no telefone a implorar votos. Se fosse preciso ficar de joelhos, se ajoelhava.

No Senado, a situação era também indefinida, com 49 contra e 49 a favor, mas a votação na Câmara era a primeira, e essencial.

Marjorie Margolies, uma jornalista de televisão, tinha sido eleita deputada pela primeira vez com uma vitória surpreendente num reduto republicano da Pensilvânia. Dos mais de 250 mil votos, ela venceu com uma margem de apenas 1.373. Sua maior promessa de campanha era combater o aumento de impostos.

Marjorie na época tinha 11 filhos, 6 dela e do marido, 5 adotivos. Foi a primeira mãe solteira a adotar uma criança estrangeira no país. Cada vez que fazia uma reportagem sobre um órfão ou órfã desamparados voltava com um filho para casa.

Naquele dia decisivo, quando recebeu o telefonema suplicante do presidente Clinton, disse que a intenção dela era votar contra ele, mas se o voto dela fosse resolver a parada - o 218º - Clinton podia contar com ela.

Na hora da votação, a Câamara estava entupida. Todos os deputados estavam presentes, as galerias, lotadas. Lideres dos dois partidos caminhavam pela alas como cães de guarda. Começou a chamada e ninguém saberia o resultado até o voto decisivo. Melhor do que cena de cinema.

Quando chamaram Marjorie Margolies, era o 218º voto e ela cumpriu a promessa .

Em protesto, os republicanos derrotados cantaram um hino de guerra. Um deputado, também da Pensilvânia, republicano, deu saltos altíssimos na frente dela , e dizia aos berros: "Adeus Marjorie. Você nunca mais sera eleita".

Aprovado pela Câmara, o orçamento passou no Senado e o país teve uma das mais prósperas décadas da história. Clinton deixou o país com dinheiro no cofre.

Mas Marjorie muitas vezes precisou de proteção policial para sair de casa e, como cantaram os republicanos, nunca mais foi eleita para um cargo político. Hoje é professora de política na Universidade da Pensilvânia. Se fosse preciso, repetiria o voto, disse ela numa entrevista na terça-feira.

Neste momento, os democratas ainda não tem os votos para aprovar a reforma da saúde. Vinte e sete votaram contra a proposta na primeira passagem pela Câmara.

Os republicanos e os democratas, com medo de perder o emprego na eleição de novembro amarraram Obama no trilho do trem. O número decisivo este ano é o mesmo.

Quem vai cortar as cordas e tirar o mocinho dos trilhos? Tchã tchã tchã tchããã...

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