Lucas Mendes: Boulevard Bovino

Na Broadway, entre 41 e 42, dou de cara com Mickey Mouse e Minnie, eu descia e eles subiam a avenida de mãos dadas, as roupas impecáveis. Caminhavam em ritmo de quem vai ou vem do trabalho, sem acenar para os passantes e sem abordagens.

BBC Brasil |

O inusitado era a normalidade dos dois, como se fossem eu e você. A primeira vez que passei pela praça, Mickey era o proxeneta administrador das Minnies que ofereciam seus serviços na frente de policiais alheios ao comércio da carne e atentos a crimes maiores. Comerciantes locais, Disney e outras corporações limparam a praça na década de 90, mas a tranquila caminhada do Mickey e da Minnie faz parte do cenário da nova Broadway transformada em sala de estar, "plaza" e "boulevard do povo" conforme os tabloides.

Quando foi anunciado que Bloomberg ia transformar uma das avenidas mais congestionadas de trânsito numa área de pedestres, comerciantes locais e motoristas subiram pelas paredes: "o verde subiu à cabeça dele. Enlouqueceu e vai enlouquecer a cidade".

A transformação veio em duas fases. Na primeira, ele reservou e mandou pintar um pedaço estreito da avenida de verde para as bicicletas; outro, um pouco mais largo, de amarelo para o povo, e separou este "jardim" da metade de asfalto para os carros com uns vasos gigantes de begônias e outras flores de verdade. Mandou instalar cadeiras de metal, mesas, barracas de praia e depósitos de lixo. Nada acorrentado.

Barbara Randall, uma executiva responsável pelos vasos e flores, disse que há quinze anos não teria sobradado nada, nem flores, nem vasos, nem lixeiras. Seriam roubados da noite para o dia. "Até agora, ninguém roubou uma planta". Passo lá duas vezes por dia e confirmo.

Na segunda fase, no fim de maio, veio o "dia da loucura". Quarteirões inteiros da Broadway fechados para qualquer tipo de cano de escapamento. Aconteceu numa terça, depois do feriadão do Memorial Day. Saí da minha casa no horário normal e em seis minutos estava na esquina da rua 41, onde costumo estacionar. Normalmente, levava de 12 a 15 minutos e aproveitava para ler a primeira página do Times em seis ou sete sinais vermelhos.

Naquele dia e desde então, eu dirijo os 30 quarteirões e só paro, às vezes, num sinal. Mal dá para ler uma das matérias na primeira pagina.

Um dos truques foi prolongar o tempo da luz verde em 60% nas Sexta e Sétima avenidas que supostamente pegariam os carros banidos da Broadway. Parecem pistas de corrida. Mistério do trânsito.

Os alarmistas, como eu, suspeitavam que os novaiorquinos jamais iriam tomar o café e o lanche deles em cima do asfalto, cercados de sirenes, buzinas e motores. Bobagem. Esta gente senta em qualquer lugar e só não há mais gente no meio da rua porque não há mais cadeiras. Os planejadores do parque tinham esquecido do detalhe de onde o povo ia sentar e quase na véspera da inauguração da segunda fase da "plaza" saíram atrás de cadeiras provisórias porque as definitivas só vão chegar em julho.

Conseguiram comprar quase 400. São dobráveis, de plástico, baratas e quase confortáveis. O plástico esquenta. O prefeito falou mal delas, mas os frequentadores do parque no asfalto acham que uma certa cafonice faz parte da Broadway. Nos dias de sol, a ocupação é de 100% na hora do almoço e no fim da tarde.

Todo mundo feliz? Claro que não. Comerciantes de tralhas turísticas dizem que as vendas caíram porque, em vez de comprar, os turistas vão tomar café nas cadeiras. As companhias de ônibus de turismo que recolhiam boa parte da clientela na Broadway também reclamam, mas a maioria aprova.

A praça, que durante quase um século foi símbolo de estresse e frenesi urbanos, da massa em constante corpo a corpo e corpo a carro, agora de frenético tem os telões bovinamente contemplados das cadeiras de praia.

Mais Mickey e Minnie. É mais surpreendente do que a maioria dos espetáculos na Broadway. Em vez de pagar US$ 120 por um ingresso, sente de graça na cadeira do Bloomberg, fique à toa na vida, e veja o bando passar.

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