Lucas Mendes: Aqui jaz o jazz. 191? - 2009 (outra vez...)

Ninguém sabe onde, quando e como nasceu o jazz, mas ele já morreu várias vezes. A nova data do falecimento é 20 de maio de 2009, nesta última quarta-feira.

BBC Brasil |

A morte foi anunciada em jornais e revistas porque, depois de 37 anos, por falta de verba, foi cancelado o festival de jazz JVC de Nova York, o maior senão um dos maiores do mundo, e outros importantes eventos jazzísticos em Miami e Chicago. O poster da Bebel Gilberto e outras estrelas já estavam nas ruas.

De 69 a 72 eu fui ao festival quando era em Newport, e conheci o professor José Duarte, que ensina jazz na universidade de Aveiro em Portugal, tem três programas nas rádios portuguesas, inclusive um de 66, um dos mais antigos programas sobre jazz no mundo.

O professor me disse que o jazz nasceu do dia da primeira gravação porque é musica improvisada - o que veio antes não foi escrito nem gravado - mas não se sabe a data exata da gravação, quem estava na banda, como não se sabe a origem da palavra. Talvez, diz ele, do francês jasser, uma gíria em Nova Orleans que significava transar.

Há quem afirme que o pai do jazz é um siciliano chamado Dominick La Rocca. As teorias mais convencionais discutem se foi Jelly Roll Mortron ou a Original Dixieland Jazz Band, que, na época, 1917, só tinha musicos brancos.

Ontem, por pura coincidência, entrevistei Ben Ratliff, crítico de jazz do New York Times, para o programa Milênio, uma entrevista que estava marcada havia várias semanas. Sobre a morte do jazz , disse que " talvez ele morra um dia , mas pelo número de músicos nas escolas e de profissionais tocando e gravando, o jazz vai viver mito tempo".

Sobre a data do nascimento dele, que sabe tudo sobre jazz, diz que também não sabe e duvida de quem sabe.

"É um debate acadêmico, mas não nasceu na primeira gravação. Aconteceu antes dos discos".

Ben vai a pelos menos três concertos por semana em NY, que continua sendo a melhor cidade para ouvir jazz, e as duas casas preferidas dele são o Village Vanguard e o Standard, mas cada vez mais a musica segue na direção do Brooklyn, com ambientes pequenos, ideais para os músicos, para o jazz e para a audiência.

Em 2002, Ben Ratliff publicou o livro The Essential Library, pela editora do New York Times, com a lista dos cem melhores discos de jazz. No meio jazzístico, provocou dissonâncias, entre elas, talvez a maior, a inclusão de Coisas, do brasileiro Moacir Santos, gravado em 65.

"Quem é este Moacir que merece um lugar ao lado de Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker e John Coltrane (também um livro de Ben Ratliff )?", atacaram os críticos.

Ben, que conhece música brasileria mais do que 99% dos brasileiros, defende a escolha e explica que Coisas tem coisas a altura do melhor jazz americano pela harmonia, melodia e ritmo. "Tudo do jazz está ali".

Algum brasileiro entraria hoje no time dele hoje dos Cem Melhores? Hermeto Pascoal?
"Não. Eu incluiria gravações brasileiras nos cem discos favoritos, mas não de jazz. Hermeto é excepcional, mas tem um pé no jazz e um pé meio fora do jazz".

Não me pergunte o que é meio pé.

Ben não está preocupado com o fim do maior festival de jazz dos Estados Unidos, o JVC.

"O grupo que comprou os direitos de George Wein (o principal criador do festival de Newport e patriarca de festivais de jazz) ano passado (por US$ 4 milhões) parecia mais interessado nos eventos do que no jazz. Tinham planos mirabolantes de festivais em lugares exóticos, alheios à música, e furaram. Eram mais incursões turísticas do que jazzísticas".

Só no ano passado, o grupo Festival Networks, que comprou os direitos de Wein, promoveu festivais em 17 países do mundo e muitos perderam dinheiro. Com a crise econômica, os patrocinadores desapareceram, mas Ben acha que o festival de Nova York é menos vitima da crise do que da incompetência do Festival Networks.

Onde e como nasceu o jazz é um mistério, mas este ano pode vir aqui para ouvir jazz, não para o festival, nem para o aqui jaz.

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