Lolita na Casa Branca

A professora Nina Khrusheva foi logo me corrigindo. O acento no nome do escritor é no primeiro O de Nabokov.

BBC Brasil |

Um proparoxítono. Em Vladimir, o acento é no primeiro "I".

Vladimir Nabokov (1899-1977) tinha pavor dos bolcheviques - uns "pedantes" - desprezava as massas e qualquer atividade ou esforço comunal. Nasceu muito rico, filho de um advogado e ensaísta que se envolveu em política no lado derrotado durante a Revolução Comunista, foi exilado e morreu assassinado na Alemanha tentando salvar a vida de um inocente.

Nabokov, nascido em São Petersburgo, foi educado em três línguas: russo, inglês e francês. Mas falou, leu e escreveu primeiro em inglês. A família, aristocrata sem título, se julgava nobre, e o russo era a mais proletária das três línguas.

Quando a família foi para o exílio, Vladimir foi estudar em Cambridge, na Grã-Bretanha, e se preparou para ser um escritor em língua russa. Sem a fortuna do pai, deu aulas de russo, boxe e tênis para pagar as contas. Além disso, era campeão de xadrez, e era apaixonado e especialista em borboletas.

Entendendo a Rússia
Nikita Khrushev, um camponês, cinco anos mais novo que Nabokov, subiu na aristocracia do Partido Comunista e durante 11 anos comandou a União Soviética. Denunciou Stalin, começou o degelo da Guerra Fria, mas foi engolido pela linha dura.

Nina Khrusheva é bisneta de Nikita e professora na Nova Escola de Assuntos Internacionais em Nova York, onde ensina uma combinação de arte e política russas.

Ela foi a primeira Khrusheva a imigrar para os Estados Unidos, onde fez um doutorado em Princenton. Fala inglês quase sem sotaque, tem um sorriso fácil num rosto redondo que lembra o bisavô.

As fotos dele com Nixon decoram as estantes bem organizadas da sala da professora. Na porta de entrada, há uma foto de Dick Cheney e, lá dentro, outra de Putin. Não que ela goste deles, mas dão a ela farto material de trabalho. Cheney não entende a Rússia; Putin sabe explorar a alma russa contra o mundo ocidental.

A professora acaba de publicar o livro Imagining Nabokov - Russia Between Arts and Politics ("Imaginando Nabokov - A Rússia entre a arte e a política", em tradução livre). Os russos, diz ela, se sentem o povo mais injustiçado do planeta. "Nós ainda acreditamos em salvações heróicas e líderes fortes. A democracia foi uma decepção depois do comunismo. Os russos não acreditam no indivíduo."
Na Rússia, o "eu" é desprezível. O importante é a comunidade. Enquanto em inglês o "I" ("Eu") é maiúsculo e é comum no começo das frases, em russo "ia" ("eu") é representado pela letra "Я", a última e mais insignificante do alfabeto local, e que quase nunca começa uma frase. O russo não diz: "Eu estou com frio", e sim "o frio esta em mim".

"Os americanos pensam de forma linear, os russos pensam em círculos - um povo que, primeiro, há mais de mil anos, por causa da religião ortodoxa e, depois, pelos sistemas políticos, se recusa a aceitar responsabilidade pelos sentimentos, pelas experiências emocionais e pessoais. A culpa e o mérito são sempre da comunidade", explica a professora.

Nina Krusheva usa dezenas de exemplos para explicar a insegurança e a desconfiança dos russos - agora crescente com relação ao Ocidente -, e usa Nabokov como modelo do russo que assumiu suas responsabilidades, um intelectual que, sem abandonar as raízes, transitou com segurança, como um príncipe, entre intelectuais europeus e americanos. Morreu em 1977, na Suíça, sem nunca ter voltado à União Soviética.

Antes de se mudar para a Suíça, Nabokov viveu na Alemanha, na França e nos Estados Unidos, onde ensinou, escreveu ensaios, contos e romances. Entre eles, um dos maiores clássicos do século 20, Lolita, que até hoje vende bem nos Estados Unidos e melhor ainda na Europa. Na Rússia de Putin, Nabokov continua pouco apreciado.

Então como este mestre do inglês e do russo, escritor difícil, homem refinado e distante, pode ser o guia da aproximação entre a Rússia e o Ocidente?
"Os livros de Nabokov são relevantes para entender as transformações que acontecem na Rússia e facilitam a integração do país no mundo globalizado. Nos seus principais romances, Nabokov desmistifica a responsabilidade coletiva e joga no indivíduo o peso da própria felicidade ou miséria."
Na teoria, as lições da professora Krusheva parecem claras - e saí do encontro disposto a ler mais Nabokov. Na prática, não sei como pode funcionar. Seria o caso de mandar Lolita, Ada ou Ardor, A Defesa Lujin, Despair e os outros romances para a Casa Branca, o Pentágono e o Departamento de Estado?

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG