Logobobagens

Nunca entendi a diferença entre Coca-Cola e Pepsi-Cola. A coisa sempre me pareceu oscilar imbecilmente entre os conhecedores de chiclete com ou sem bola.

BBC Brasil |

Ou então o imbecil era - e sou - eu e trata-se de requintada discussão entre educadas papilas gustativas de enófilos capazes de dizer a diferença entre um Granja União e um Chateauneuf-du- Pape.

Inteligentemente, coisa rara, fiquei com o nosso velho e querido Guaraná Antarctica, que inclusive encontro com a maior facilidade aqui em Londres. Sem reforma ortográfica atacando o Antarctica nem nada. Do alto de minha soberba, vejo os tolos discutindo os méritos de um ou de outro refrigerante norte-americano.

Agora, porém, para que não ficasse mais sombra de dúvida a respeito da empulhação dessa "cocapepsicolagem", fico sabendo que a Pepsi Cola decidiu mudar seu logotipo afim de dar combate à sua rival, que, aliás, sempre a superou em matéria de vendas e popularidade. Sim, irmãos, a humanidade não é lá muito viva.

Na internet dou com os olhos no resumo de um documento de nome extraordinariamente pedante. E idiota.

Tal de "O Campo de Força Gravitacional da Pepsi". Vazou. São 27 páginas que custaram 1 milhão e meio de dólares aos fabricantes do, para mim, famigerado refrigerante.

Tudo para justificar uma mudança naquele símbolo redondinho, em três cores, vermelho, azul e branco (uma a mais do que sua rival, a Coca-Cola), que pode ser encontrado nas embalagens e anúncios da Pepsi.

Exemplifico citando um trecho que mais sede me deu de um guaranazinho: "Investindo em nossa história e no ethos de nossa marca podemos criar uma trajetória progressiva com vistas ao futuro."
Esta frase inicial é mais do que razoável. Segundo o linguista cognitivo George Latoff cuja vida e obra empírica é inteiramente dedicada ao uso de metáforas na literatura inglesa.

Latoff, de certa feita, num dia mais inspirado que os outros, mostrou que nós, humanos, em geral concebemos o abstrato em termos do concreto.

E exemplificou, o Latoff. Mostrou que a ira é uma panela de pressão prestes a entornar seu caldo. Taí, eu também vi esse desenho animado. Pernalonga, se não me engano.

Latoff não está distribuindo palavras adoidado. Absolutamente. Há coerência em suas palavras e suas ponderações. Tudo no mundo tem uma explicação.

Ou, para citar Wittgenstein, já que alçamos voo, o mundo é tudo aquilo que é o caso. Ou que vem ao caso. Por aí.

Para que não nos entusiasmemos muito, desçamos até a venda da esquina e vamos à latinha de Pepsi. Ao tal do documento vazado. Talvez o esplêndido filósofo vienense apreciasse. Senão, vejamos.

"O investimento em nosso DNA leva a uma inovação arrebatadora que nos permite sair do sistema linear em que vivíamos com direção ao futuro."
Outro:"O DNA da Pepsi tem sua origem na dinâmica das oscilações perimetrais."
Não aguento. Só mais unzinho:"Nossa geometria é autêntica. As cores que embasbacam as pessoas derivam-se de um método científico baseado na tarefa que resume a essência e as principais características do produto."
Resumo da história: aquele logotipozinho da Pepsi vai mudar. Continuará redondo. Continuará com as três faixas de cores. Vermelho em cima, branco no meio, azul embaixo. Meio de banda. Com a diferença (de 1 milhão e meio de dólares) de que, agora, a onda branca é um pouco menor e arqueia-se meia inclinada para a direita, delineando, por assim dizer, os contornos de um sorriso.

O novo slogan da Pepsi, lançado agora em janeiro no Brasil, via anúncios e comerciais, é "Questione. Mude. Beba Pepsi."
Tãotá.

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