Livro traz nova visão global da expansão marítima portuguesa

Joaquín Rábago Londres, 11 mai (EFE).- O livro The Portuguese Oceanic Expansion, 1400-1800 (A Expansão Oceânica Portuguesa, 1400-1800) busca oferecer uma visão global e atualizada desse importante fato histórico, já que as sínteses disponíveis em inglês são antigas ou só cobrem períodos curtos, como os séculos XV e XVI.

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Essa constatação é feita por Francisco Bethencourt, professor do King's College de Londres e co-editor com Diogo Ramada Curto, do European University Institute de Florença (Itália), dessa obra que acaba de ser publicada pela Cambridge University Press.

O livro pretende apresentar as mais recentes pesquisas de especialistas de diversos países, deixando de lado as perspectivas nacionalistas, para o qual contou com pesquisadores de várias nacionalidades e que trabalham em várias universidades.

Entre esses centros de ensino estão a Universidade de Sorbonne (Paris), a de Lisboa, a de Tecnologia de Sydney, a de Montreal ou as americanas Johns Hopkins, Yale e a de Boston.

"Pela primeira vez integramos, além disso, a literatura e as artes nesse tipo de história geralmente dominada pela política e pela economia", diz Bethencourt.

Uma grande parte do livro é dedicada ao "mundo cultural", dividida em capítulos como a cultura colonial e imperial portuguesa, a linguagem e a literatura no império português, a expansão e as artes, e a ciência e a tecnologia.

Sobre as diferenças essenciais entre os impérios de Portugal e da Espanha, Bethencourt afirma que esse último "era relativamente mais centralizado do que o português, onde o poder dos capitães e governadores de província era maior".

"O império português era, além disso, mais corporativo e clientelista: o rei utilizava habitualmente os postos administrativos e militares para premiar serviços ou manter fidelidades".

Os diferentes modelos de expansão dos dois impérios - penetração e ocupação territorial ou estabelecimento comercial nas zonas litorâneas - podem ser explicados pelas possibilidades locais, segundo Bethencourt.

"Foi Hernán Cortés quem concebeu a idéia de um império territorial espanhol, em contraste com um império português de tipo comercial", afirma o professor.

"O fato é que o império português foi territorial no Brasil, comercial na África, com alguma expansão territorial em partes da atual Angola e Moçambique, e comercial também na Ásia, embora com expansão territorial no Ceilão", diz.

"Os espanhóis tinham sonhos de expansão territorial na Ásia, mas suas expedições na Indochina ou na atual Indonésia foram um fracasso, por que tudo dependia das condições locais e não das 'qualidades essenciais' dos diferentes conquistadores", acrescenta.

Bethencourt reconhece o "devastador impacto" na população indígena da América das guerras e dos deslocamentos de povoações, e principalmente das epidemias transmitidas pelos europeus.

"As culturas locais foram aniquiladas em grande parte, embora as novas pesquisas históricas tenham descoberto forte resistência e capacidade de negociação das povoações ameríndias nos séculos XVI e XVIII", afirma.

O professor revela que o tráfico de escravos foi outro impacto crucial da expansão ibérica: mais de 12 milhões de africanos foram transportados para a América, uma especialidade dos portugueses, que levaram dali cerca da metade dos escravos, em relação aos pouco mais de 30% transportados nos navios ingleses.

Em relação ao impacto da rivalidade holandesa no desenvolvimento do império português, Bethencourt lembra que os holandeses combateram os portugueses entre 1600 e 1660 em três continentes.

"Ganharam na Ásia, perderam totalmente no Brasil e foram expulsos dos principais portos da África. Como conseqüência, o eixo do império português na Ásia se deslocou definitivamente para o Atlântico, onde os portugueses tinham muito mais recursos humanos", diz.

Calcula-se que, entre 1450 e 1800, mais de 1,5 milhão de portugueses emigraram, o que é um fenômeno em uma população que era de apenas 1 milhão no início desse período e atingiu três milhões ao final, afirma Bethencourt.

"A concentração desses recursos humanos no Brasil e nas ilhas atlânticas, assim como a relação bipolar entre Brasil e África permite explicar a derrota dos holandeses no Atlântico", conclui.

EFE jr/bm/an

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