Livro relata 'clarão silencioso' após explosão em Hiroshima

John Hersey reconstituiu dia do ataque a partir do relato de seis sobreviventes; leia trechos da obra

iG São Paulo |

A explosão da bomba atômica na cidade japonesa de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, é o tema de “Hiroshima” (Companhia das Letras, 176 p., R$ 42), livro escrito por John Hersey e considerado um dos principais títulos do gênero conhecido como jornalismo literário, no qual técnicas da literatura são utilizadas para a narração de um fato jornalístico.

Hersey foi a Hiroshima em 1946, um ano após a explosão da bomba, e contou a situação da cidade a partir dos relatos de seis sobreviventes. O texto foi publicado pela revista americana “The New Yorker” e no mesmo ano foi editado em livro. Quarenta anos depois, Hersey voltou a Hiroshima e acrescentou à obra um epílogo, no qual conta o que aconteceu com os mesmos seis personagens.

Leia, abaixo, trechos da obra nos quais Hersey reconstitui o dia da explosão a partir dos relatos dos sobreviventes:

Reverendo Kiyoshi Tanimoto

“Então um imenso clarão cortou o céu. O reverendo se lembraria nitidamente de que o clarão partiu do leste em direção ao oeste, da cidade em direção às montanhas. Parecia um naco de sol. Os dois amigos reagiram, apavorados – e tiveram tempo para reagir (pois mais de três quilômetros os separavam do centro da explosão). O sr. Matsuo subiu os degraus da frente, entrou na casa e praticamente se enterrou entre as trouxas de roupa. O sr. Tanimoto deu três ou quatro passos e se jogou entre duas grandes pedras do jardim, agarrando-se firmamente a uma delas. Com o rosto encostado na pedra, não viu o que aconteceu. Sentiu uma pressão repentina, e estilhaços de madeira e de telhas choveram sobre ele. Não ouviu barulho nenhum. ( Praticamente ninguém em Hiroshima se lembra de ter escutado qualquer barulho produzido pela bomba . Entretanto, um pescador que estava em sua sampana no mar Interior, perto de Tsuzu – o homem com quem a sogra e a cunhada do pastor moravam -, viu o clarão e ouviu uma tremenda explosão; ele se encontrava a quase 32 quilômetros de Hiroshima, porém o estrondo foi maior do que quando os B-29 bombardearam Iwakuni, a apenas oito quilômetros de distância.)”

Sra. Hatsuyo Nakamura

“A sra, Nakamura observava o vizinho quando um clarão de um branco intenso, de um branco que nunca tinha visto até então, iluminou todas as coisas. Ela não se importou em saber o que estaria acontecendo com o vizinho; o instinto materno a direcionou para sua prole. No entanto, mal deu um passo (encontrava-se a 1215 metros do centro da explosão), alguma coisa a levantou e a fez voar até o cômodo contíguo, em meio a partes de sua casa. Quando ela aterrissou, tábuas caíram a seu redor, e uma chuva de telhas a cobriu. Tudo escureceu. A camada de destroços não era muito densa, e a sra. Nakamura se levantou. Ouviu uma das crianças gritar “Mamãe, socorro!” e viu a caçula Myeko, de cinco anos, enterrada até o peito e incapaz de se mexer. Enquanto abria caminho com as mãos, freneticamente, para acudir a menina, não escutou nem avistou o menor sinal dos outros filhos.”

Dr. Masakazu Fujii

“O dr. Fuji sentou-se na esteira do terraço, cruzou as pernas, colocou os óculos e se pôs a ler o Asahi de Osaka. Gostava de informar-se sobre o que ocorria em Osaka porque sua esposa estava lá. E então viu o clarão, que, na posição em que se achava – de costas para o centro da cidade e com os olhos fixos no jornal -, pareceu-lhe de um amarelo intenso. Surpreso, começou a levantar-se. Nesse momento o hospital (situado a 1395 metros do centro) se inclinou e, com um baque terrível, caiu no rio. O médico, que ainda não completara o ato de levantar-se, foi jogado para frente, para os lados e para cima, socado e agarrado; perdeu a noção das coisas, pois tudo aconteceu com crescente rapidez; sentiu que a água o envolvia. Mal teve tempo de pensar que estava morrendo, pois logo constatou que estava vivo, imprensado entre duas vigas em V, como um bocado de alimento entre dois hashis imensos – mantido na posição vertical, de modo que não conseguia se mexer, com a cabeça miraculosamente acima da água e o torso e as pernas submersos. Os destroços do hospital se espalhavam a seu redor numa louca mistura de estilhaços de madeira e anestésicos. Seu ombro esquerdo doía horrivelmente. Seus óculos haviam sumido.”

Srta. Toshiko Sasaki

“De volta a sua sala, a srta. Sasaki sentou-se a sua mesa. Estava bem longe das janelas, que ficavam a sua esquerda, e tinha a suas costas duas estantes altas, contendo todos os livros da biblioteca organizada pelo departamento de pessoal. Guardou algumas coisas numa gaveta e mudou uns papéis de lugar. Antes de atualizar seus arquivos, acrescentando novas contratações, demissões e afastamentos, resolveu conversar um pouco com a moça sentada a sua direita. Assim que virou a cabeça para o lado oposto ao das janelas, um clarão ofuscante encheu a sala. O medo a paralisou em sua cadeira por um longo momento (a fábrica distava 1440 metros do centro). Tudo veio abaixo, e a srta. Sasaki perdeu a consciência. O teto desabou repentinamente, o piso de madeira do andar superior despencou, levando com seus estilhaços as pessoas que lá se achavam, e o telhado ruiu; as entantes que estavam atrás da srta. Sasaki caíram, e seu conteúdo a derrubou, quebrando-lhe a perna esquerda. No primeiro momento da era atômica livros imprensaram um ser humano numa fundição de estanho.”

Padre Wilhelm Kleinsorge

“Ao ver o terrível clarão – que, diria mais tarde, lembrou-lhe uma história que lera na infância, sobre a colisão de um meteoro imenso com a Terra -, teve tempo (pois se encontrava a 1260 metros do centro) para um único pensamento: uma bomba caiu em cima de nós. Então perdeu os sentido por alguns segundos ou minutos. Nunca soube como saiu do prédio. As primeiras coisas de que se deu conta, ao recobrar a consciência, foi que vagou pela horta da missão, em seus trajes íntimos, com pequenos cortes sangrando em seu flanco esquerdo; que todos os edifícios a seu redor haviam desmoronado, à exceção da casa dos jesuítas, que tempos antes um padre chamado Gropper escorara mais de uma vez, com medo dos terremotos; que o dia escurecera; e que a Murata- san , a governanta, estava perto dele, gritando sem cessar: “ Shu Jesusu, awaremi tamai ! Nosso Senhor Jesus, tenha piedade de nós!.”

Dr. Terufumi Sasaki

“Encontrava-se a um passo de uma janela aberta quando o clarão da bomba se refletu no corredor como um gigantesco flash fotográfico. Agachou-se rapidamente, apoiando-se no joelho, e, como só um japonês diria, falou para si mesmo: “Ssaki, gambare! Coragem!”. Os óculos do médico voaram longe; o frasco de sangue [que segurava] se espatifou contra a parede; as sandálias saíram-lhe dos pés – mas isso foi tudo que lhe aconteceu, graças à posição em que ele se encontrava.”

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