Livro de ex-procurador revela segredos da extradição de Fujimori

David Blanco Bonilla Lima, 26 jul (EFE).- Os segredos do processo de extradição do Chile do ex-presidente do Peru Alberto Fujimori (1990-2000) são narrados em um livro de memórias escrito por Omar Chehade, o ex-chefe da Unidade de Extradições da Procuradoria peruana que conseguiu a histórica decisão.

EFE |

Em "Atrapando al Fugitivo" ('Apanhando o Fugitivo', em tradução livre), Chehade narra as dificuldades, oposições e ameaças, assim como as estratégias que permitiram superar os obstáculos à equipe da Procuradoria peruana.

Chehade, que foi encarregado da extradição de Fujimori, declarou à Agência Efe que redigiu o livro "pensando em produzir um registro e um arquivo histórico e duradouro para que a sociedade e a nação se inteirarem do que verdadeiramente sucedeu".

Ele revelou que a extradição foi conseguida apesar dos interesses contrários de setores políticos e econômicos de Chile e Japão, e perante o desinteresse do Governo peruano que, como assegurou, não queria ver o ex-presidente no Peru.

"Tudo indicava que Fujimori não seria extraditado tanto pelos interesses econômicos e políticos que o setor da direita chilena certamente tinha, após ter acompanhado Fujimori com investimentos no Peru, como por certos interesses de grupos políticos no Japão", declarou.

O ex-procurador também assegurou que houve "pouco caso do principal ator político, que era o novo partido governante do Peru (o Partido Aprista Peruano), que não queria extraditar Fujimori".

Consciente de que a incumbência era "muito complicada", Chehade aceitou dirigir a Unidade de Extradições, que dependia do Procurador Carlos Briceño, apesar de todos lhe dizerem "que era uma loucura aceitar" a função, e que sua carreira, aos 36 anos, seria "interrompida de maneira absoluta".

"Por outro lado pensei em minha família, nos filhos, e nos filhos dos meus filhos que virão, e obviamente pensei na pátria e que isto não podia continuar", enfatizou.

No livro, cheio de dados, explicações didáticas sobre as acusações e algumas lembranças até então desconhecidas, Chehade revela que a Procuradoria contratou um assessor especializado em temas de inteligência, análise de informação e elaboração de estratégias.

Esta pessoa, não identificada, teve um importante papel na elaboração das estratégias do processo e, junto aos membros da Procuradoria, elaborou um plano denominado "Vigas mestras".

Isto serviu para fortalecer um processo que foi amplamente apoiado pelo Governo do ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), mas que, segundo disse, "caiu no desinteresse" quando Alan García assumiu a chefia do Estado, em julho de 2006.

A Procuradoria enfrentou então a falta de apoio do Governo peruano, que optou por dizer que devia ser evitado qualquer pronunciamento político sobre o tema.

Chehade assegurou que García "olhava torto para a extradição" e rejeitou a possibilidade de que um processo desse tipo não tenha um componente político.

"A extradição, em princípio, não é só jurídica e judicial, mas também tem um embasamento, um suporte político, a partir do momento em que são os Estados, através de seus Governos, os que a solicitam ao outro Estado", disse.

Apesar disto, a Procuradoria optou por não confrontar publicamente as autoridades do Executivo, já que sempre considerou muito importante que o Peru oferecesse ao Chile uma imagem de unidade no tema.

No livro de Chehade, publicado pela editora peruana Horizonte, foram revelados dados desconhecidos, como que os advogados que defenderam Fujimori no Chile tentaram oferecer seus serviços primeiro ao Governo peruano.

Além disso, afirmou que um dos grandes erros de Fujimori foi apresentar uma "alegação ofensiva" no qual assegurava não ter tido nenhum conhecimento dos crimes pelos quais era acusado e responsabilizava os militares por eles.

Em relação ao processo por violações dos direitos humanos que Fujimori enfrenta atualmente, Chehade disse que pensa que o ex-governante "será condenado".

"Acho que será condenado na qualidade de autor responsável por ter planejado e executado uma guerra de baixa intensidade ou uma guerra não convencional, e uma política de terrorismo de Estado", declara Chehade.

Satisfeito por sua tarefa, o ex-procurador reiterou que se sente orgulhoso de "ter sido uma das peças que liderou o processo de extradição" e que conseguiu ter sucesso nessa empreitada "contra tudo e contra todos". EFE dub/bm/gs

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