Liga Norte exige que Berlusconi esclareça alianças de governo

Aumentam sinais de divisão na coalizão; premiê diz que renunciará se Parlamento não aprovar plano de ajuste econômico

iG São Paulo |

A separatista Liga Norte reivindicou neste domingo que o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, escolha se quer ter a legenda como aliada no Executivo ou a União dos Democratas-Cristãos (UDC), liderada por Pier Ferdinando Casini.

O ultimato veio depois da notícia divulgada pela imprensa italiana de que Berlusconi está sondando Casini sobre a possibilidade de entrar na maioria governista, o que foi interpretado pelo opositor Partido Democrata (PD) como um sinal de que o primeiro-ministro não pode garantir um "horizonte" político.

"O governo não consegue esconder suas divisões internas", disse o líder democrata Filippo Penati, em alusão às contínuas tensões entre Berlusconi e Gianfranco Fini , presidente da Câmara dos Deputados e cofundador de seu partido, o Povo da Liberdade (PDL), e às posições adotadas pela Liga Norte.

"Ou nós ou Casini", disse o líder da Liga Norte, Umberto Bossi, em entrevista publicada neste domingo pelo diário "La Padania", que apoia o partido. A Liga Norte considera a UCD como sua "verdadeira inimiga" e lembra que o partido sempre se mostrou contrário a suas propostas, principalmente no plano econômico e na introdução do federalismo econômico na Itália.

As palavras de Bossi seguem às do ministro do Interior Roberto Maroni, também da Liga Norte, que no sábado já mostrou sua oposição a uma aliança com Casini. "Se alguém quiser sair da maioria, que o faça, mas se o governo cair, haverá novas eleições, sem nenhuma alternativa", declarou o ministro.

Maroni se referia à possibilidade de que Fini e seus simpatizantes decidam deixar o PDL e criar uma nova legenda por causa dos atritos com Berlusconi, que por sua vez poderia convidar o grupo de Fini a deixar a coalizão governista. Com isso, segundo a imprensa italiana, Berlusconi estaria buscando novos apoios políticos que garantam sua continuidade no poder.

Berlusconi e Casini se reuniram em um jantar na quinta-feira em Roma na casa de Bruno Vespa, um conhecido jornalista da televisão pública, o que deu margem a inúmeras especulações. Uma delas é de que Berlusconi poderia ter oferecido a Casini, que já foi seu aliado no final da década dos anos 90, uma nova união, embora o líder da UDC negue que tenha recebido alguma oferta do governo.

Pacote de ajuste econômico

Os sinais de divisão na coalizão de governo surgem dias antes da votação, em 15 de julho, de um impopular pacote de 25 bilhões de euros em prol da austeridade fiscal. Berlusconi afirmou que renunciará, como pede a Constituição, caso perca a votação.

O plano de ajuste econômico promovido pelo Executivo prevê uma economia de quase 25 bilhões de euros para os próximos dois anos. Berlusconi justificou o plano neste sábado dizendo que se trata de um programa "completamente necessário" e está em linha com os pedidos da União Europeia de reduzir o déficit público.

A iniciativa anticrise teve oposição dos sindicatos e das forças políticas da minoria. Também representou um forte confronto com as regiões italianas, inclusive com as de governo de centro-direita, às quais se pedem cortes no valor de dez bilhões de euros.

Lei da Mordaça

Além do plano de ajuste econômico, o governo de Berlusconi também vem sendo pressionado pelo projeto sofre escutas telefônicas, apelidado pela imprensa italiana de "lei da mordaça".

Nesta sábado, o primeiro-ministro da Itália voltou a atacar a imprensa e a esquerda de seu país ao declarar que invocam a liberdade de imprensa como se fosse um " direito absoluto " e acrescentou que tais direitos "não existem" na democracia.

Na sexta-feira, parte dos veículos de comunicação da Itália interrompeu suas atividades como forma de protesto contra a lei, que limita o uso e difusão de escutas telefônicas das investigações oficiais. Segundo a Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI), a greve teve apoio de 90% dos jornalistas italianos. O secretário da FNSI, Franco Siddi, promotor do protesto, assegurou que a greve foi a que teve "maior participação dos últimos 15 anos", com "mais de 90% das televisões, dos jornais, das rádios e das agências de notícias", em declarações divulgadas neste sábado pelo jornal "La Repubblica".

A lei, que está em trâmite no Parlamento italiano, estabelece, entre outras medidas, penas de até 30 dias de prisão ou multas de até dez mil euros (US$ 12,6 mil) para os jornalistas que publicarem escutas durante as investigações.

A norma, avalizada pelo Senado no último dia 10 de junho, passará no plenário da Câmara dos Deputados no próximo 29 para seu debate definitivo e, embora no início era esperado que ela fosse aprovada sem mudanças, nos últimos dias a maioria conservadora deu a entender que podem ser introduzidas algumas remodelações.

Além da imprensa, o projeto de lei recebeu críticas da oposição e dos magistrados, assim como de milhares de cidadãos que em 1º de julho se manifestaram contra a norma, que também se deparou com o ceticismo do presidente italiano, Giorgio Napolitano.

Berlusconi tentou acalmar Napolitano com uma visita no sábado do ministro da Justiça italiano, Angelino Alfano, à sede da chefia de Estado para assegurar que a maioria conservadora está disposta a introduzir modificações no texto na Câmara dos Deputados.

*Com EFE e Reuters

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